ALTOS E BAIXOS

 

  

Quando comecei a praticar meditação, redigia relatórios diários, descrevendo as experiências interiores pelas quais passava. Durante muito tempo segui esta rotina; mas, a partir de determinado ponto, passei a registrar por escrito apenas as novas descobertas/percepções. Consultando aqueles registros, noto claramente quão instável tem sido a jornada desta alma. Sempre após uma experiência significativa, onde dou um passo à frente, o grande inimigo (mente/ego) contra-ataca, tentando me afundar ainda mais neste mundo de ilusões.  Resolvi escrever este texto porque descobri que o mesmo acontece com todos os buscadores, isto é: para cada avanço espiritual, há uma reação egocêntrica, cada vez mais forte. Como exemplo, vou relatar apenas a última experiência pela qual passei, pois talvez os buscadores nela encontrem consolo/fortalecimento contra as dúvidas e o desânimo...

 

Uns 3 meses atrás, aproveitando um período favorável para a interiorização mental, passei a meditar também ao crepúsculo, após o trabalho. Em um daqueles tranquilos inícios de noite, sentei-me em posição de lótus, fechei os olhos e, pouco depois, ocorreu-me a revelação de quão real é o mundo exterior, perceptível pelos sentidos. Um arrepio percorreu o corpo e, então, abri os olhos e olhei em volta. As coisas estavam nos mesmos lugares, mas não as via da mesma forma, pois forte sensação de intimidade, de que nada era separado de "mim", estava presente. Só isto consigo explicar em palavras. Foi uma confirmação incontestável do que ensinam os Sábios, sobre a relatividade do mundo. Já havia passado por experiência semelhante, mas rápida e superficialmente, e apenas enquanto estava com mente/sentidos sob controle, durante a meditação. Naquele momento, não: os olhos estavam bem abertos, percebendo tudo à minha volta, só que de maneira correta.

Durante os dias seguintes, grande calma mental me acompanhou e os problemas cotidianos, que pareciam terríveis antes, não me afligiam, então. Não foi uma crise de alienação, o que ocorreu, já que a consciência habitual estava presente: os problemas da vida, sim, é que se apresentavam em suas reais dimensões, e havia a certeza de que eles se resolveriam sem a necessidade da minha interferência. Percebi claramente e sem sombra de dúvidas, que a visão que temos da vida é errada. Os problemas, os sofrimentos e as "injustiças" que percebemos estão sob controle, Alguém está atento e cuidando de tudo. Sobre nenhum de nós é colocado um fardo que não possamos carregar...

Naqueles venturosos dias, conseguia facilmente interiorizar a atenção, em qualquer hora ou lugar, e tinha que disfarçar, para ninguém perceber as lágrimas de beatitude, que escorriam por este rosto. Não costumo orar ao Altíssimo, fazendo pedidos pessoais; desta vez, porém, rezei: "Senhor, que este estado de espírito nunca me abandone". Aos poucos, no entanto, aquela sensação de unidade foi enfraquecendo e, a mente, fortalecendo-se novamente. Agora sei que, na experiência vivida, faltou o mais importante: a percepção da verdadeira realidade de mim mesmo e, sem isto, ficou provado que nada permanente podemos alcançar. Analisando o que aconteceu, percebo que o sentido de dualidade não desapareceu: alguma coisa manteve-se separada de "mim".

 

Sempre me considerei uma pessoa boa, porque sofro quando vejo um animal ferido e abandonado, crianças e velhos pedindo esmola, etc.; mas, isto não é sinal de bondade: é sinal de ignorância. Há alguns anos, venho sentindo que preciso mudar e, com a experiência descrita acima, confirmou-se que, enquanto não enxergarmos o mundo exatamente como ele é, não encontraremos Paz e Felicidade em lugar/tempo algum. Claro que é extremamente difícil para nós, abandonarmos condicionamentos mentais tão profundamente enraizados em nossa subconsciência e, ainda mais, quando estes condicionamentos são tão prazerosos para o ego. "Enxergar o mundo como ele é", é alcançarmos a convicção inabalável de que nada acontece ao acaso; que tudo está relacionado através de Algo superior e tem sua razão; e que somos apenas uma pequena engrenagem, na Grande Máquina. Deveríamos viver sempre tranquilos, como me aconteceu durante alguns dias, após a percepção descrita, porque o Maquinista sabe muito bem operar a máquina. Se cada engrenagem preocupar-se apenas com a sua humilde, mas importante função, a máquina vai funcionar perfeitamente. O problema é que as engrenagens querem consertar a máquina, só que elas estão desperdiçando tempo e preocupando-se à toa, já que a máquina não tem defeito algum...

O parágrafo acima nos leva, novamente, ao tema polêmico: é certo ou errado ajudar o próximo e o mundo? Quando perguntam para um Sábio, Ele responde que é errado, pois sabe que o questionador não é um dos raríssimos homens que realmente estão preparados para a missão, pois tais homens não fazem perguntas. O Senhor Jesus era excepcional desde a infância, mas apenas começou a ajudar o mundo após realizar a meta da vida; depois, ensinou: "Buscai, antes de tudo, o Reino de Deus". O mesmo fizeram e pregaram o Senhor Buda, Bhagavan Ramakrishna, Bhagavan Ramana Maharshi e outros grandes Mestres. Na verdade, não é que o mundo não precise de ajuda, mas, para nós, que não enxergamos o mundo como ele é, perigoso é acreditar que ele precisa. É perigoso, porque, então, decidiremos que devemos ajudá-lo, mas não conseguimos fazer isto sem contaminar, com o egoísmo, nossas intenções; então, acaba um meio, virando um fim, e nos desviamos do caminho correto. Em vários trechos do Bhagavad-Gîtâ, o Senhor Krishna explica a questão. A ajuda desinteressada ao próximo é um meio sublime para a evolução de cada indivíduo e, consequentemente, de toda a humanidade; mas, a ajuda egoísta, é tão prazerosa (ou "gratificante", o termo da moda), que torna-se o fim, a razão de viver, e a pessoa acaba se afastando ainda mais da meta da vida, que é alcançar o Reino de Deus. Concluindo: o mais seguro, para quem que não quer perder o rumo, é ignorar as artimanhas do ego, que vai insistir que é um ato de bondade ajudar o mundo agora e já, e confiar irrestritamente no Maquinista (mesmo porque Ele merece toda nossa confiança), enquanto cursamos a pós-graduação da máquina. Depois disto, com o diploma nas mãos, Ele ficará muito satisfeito com a nossa colaboração desinteressada, para manter a máquina em operação, embora seja capaz de cuidar de tudo sozinho...

 

Depois deste desvio todo, finalizemos o assunto-título... Agora que o senhor desta vida (ego/mente) voltou ao trono, só me resta levantar, sacudir a poeira e continuar em frente, aguardando pacientemente por nova oportunidade de me aproximar do Reino de Deus. Como consolo, ficam as palavras dos Sábios, de que todas as pérolas que encontramos neste caminho nunca nos serão tomadas, nem mesmo pelo maior de todos os ladrões (a morte); elas são depositadas em nossos Corações e, no devido tempo, rendem juros e dividendos...

 

Corrigindo a oração egoísta que fiz: "Senhor, que se cumpra sobre mim a Tua Vontade e, não, a minha".

 

 

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11/06/2007

 

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