CAMINHOS DA CRUZ, CAMINHOS DA PAZ

 

Estou no Sinédrio, trajando vestes cerimoniais de fariseu. Há outros, quase todos agressivamente acusando e ofendendo aquele nazareno, chamado Jesus, que mantinha-se calmo, em silêncio. Percebendo que nada obteríamos daquela forma, ergueu-se o sumo sacerdote, que até então mantivera-se calado, e perguntou-lhe: "És o filho de Deus?". Ele levantou os olhos e respondeu, sem vacilar: "Sim, eu sou!". Em meio à indignação e à condenação que tal resposta provocou, algo em mim despertou e, surpreso, me vi pensando pela primeira vez: e quem não é o(a) filho(a) de Deus? Nada falei, claro, por medo de ser tachado de blasfemador e, também, condenado; apenas olhei para o homem, cujos olhos, voltados para mim, diziam: "Não te aflijas por mim; esta é a Vontade do Pai".

Agora, nosso grupo está no Pretório, Jesus postado em pé, à distância respeitosa de Pôncio Pilatos, que lhe disse: "Não te defendes contra estas graves acusações? Não percebes que tenho poder para libertar-te ou para crucificar-te?". A isto, o nazareno respondeu: "Sobre mim, nenhum poder tens. Esta vida, eu a dou; ninguém a toma". Surpreendido, Pilatos pôs-se a refletir e percebi ter concluído, assim como a maioria de nós, que o homem era perigoso, já que nada temia, nem mesmo a morte. Assim, concordou com a execução da sentença que havíamos solicitado e, para desestimular tais rebeldias, mandou humilhá-lo em praça pública, antes da crucificação.

Prenderam Jesus a uma coluna e o chicotearam dezenas de vezes; ele, no entanto, mantinha o autocontrole e isto irritou seus algozes, os soldados romanos, que esperavam vê-lo gritando de dor e implorando por misericórdia. Em represália à afronta, fizeram uma coroa de espinhos e cravaram-na em sua cabeça. Sangue começou a escorrer das novas feridas, em meio à zombaria geral. Com lágrimas rolando por esta face, novamente olhei para Jesus que, erguendo um pouco a cabeça, me confortou com seu olhar, exatamente como na ocasião anterior: "Não te aflijas por mim; esta é a Vontade do Pai".

Trouxeram uma pesada cruz de madeira, a puseram sobre um ombro do homem e mandaram-no seguir o pelotão romano, rumo ao cume do Monte Calvário, local das crucificações. No caminho, percebia-se que estava enfraquecido, devido à perda de tanto sangue; porém, de nada reclamava. Entre o povo presente, alguns choravam e outros divertiam-se com a cena; ele, todavia, concentrado em sua missão, ignorava o tumulto.

Valendo-se de força desconhecida por mim, conseguiu vencer a subida e a distância, arrastando a cruz até onde o mandaram levá-la. Era-me incompreensível aquela passividade, aquele conformismo, diante de tanta humilhação e da morte iminente. Ele, que fora um homem de grande coragem, desafiando ilustres judeus e o império romano... Decepcionado, tentava entender aquilo tudo, quando, repentinamente, uma voz sussurrou em meu coração: "Senhor! Que seja, sempre, conforme a Tua Vontade; nunca, conforme a minha".

Por fim, lá está ele, suspenso na cruz, mãos e pés perfurados por cravos, seu sangue encharcando a terra. Após algumas horas testemunhando aquilo que me parecia um terrível martírio, fechei os olhos e orei silenciosamente: "Senhor, tem piedade dele". Em seguida, ao olhar para Jesus, percebi que seu rosto, agora voltado em minha direção, resplandecia de Paz. Era como se dissesse: "Por que achas que estou sofrendo? Simplesmente porque sofre, este corpo? O Senhor é Todo-piedoso". Enquanto tentava compreender a nova revelação, observei que, não sem esforço, ele conseguiu erguer a cabeça, esboçar um sorriso e agradecer, em voz fraca: "Pai, me destes uma missão e força para cumpri-la. Obrigado!". Daí, a cabeça despencou para a frente e já não havia sinal de vida. Para confirmar a morte, um soldado romano varou seu abdômen, com a ponta da lança, e não houve reação física. Em desespero, alguns começaram a chorar. Me afastei dali e, ao encontrar-me sozinho, sentei numa pedra e rompi em lágrimas... Descontrolado, lancei ao ar um absurdo lamento: "Rabi! Por que me despertaste e, em seguida, me abandonaste?". Ainda sentado, apoiei a cabeça sobre os joelhos e continuei chorando e chorando até ouvir, dentro de mim: "Sou o bom pastor e nunca abandono as ovelhas de meu rebanho. Perdi a vida para que elas ganhem a VIDA e juntem-se a mim, no 'Reino de Deus', reino da Paz inabalável, aqui e agora. VIDA não depende da carne e não pode morrer. Portanto, não chores pela morte daquele conhecido como Jesus, pois Eu, o Cristo dele e de todos, estou convosco por toda a eternidade, em vossos corações".

E este fariseu que vos escreve, agora esclarecido e consolado, também agradeceu: "Obrigado, Senhor, por me mostrar o caminho para ti!".

 

Subitamente, o cenário mudou e, agora, estou no sopé do Monte Arunáchala, sul da Índia. O ano é 1949 e sou um dos médicos que cuidam daquele conhecido como Ramana Maharshi. Há alguns meses, perceberam um nódulo no braço esquerdo de Bhagavan (como era respeitosamente chamado pelos devotos) e especialistas decidiram extirpá-lo, sem dar importância ao caso. Como não houve cicatrização, exames foram feitos e diagnosticado que se tratava de tumor maligno. Apesar de não ser seu devoto e nem mesmo religioso praticante, quando soube do caso me ofereci como voluntário para ajudar em seu tratamento, já que estava aposentado e aquela me pareceu boa oportunidade para fazer algo útil. Ele, no entanto, que nenhuma ajuda solicitara antes da operação, nenhuma ajuda solicitava agora e permanecia calmo, sem preocupar-se com a terrível doença. Entretanto, recebia gentilmente a nós, seus médicos-voluntários, e concordava com tudo o que propúnhamos, nada perguntando ou questionando...

Aos poucos, aquele que inicialmente me parecera tão somente um bom velhinho que não merecia tal destino, foi conquistando meu coração, sem palavras, apenas com sua atitude em relação à vida: muitos lamentavam e choravam, por vê-lo definhando rapidamente, mas não ele, cuja Paz era tanta que penetrava nos corações dos que entendiam o motivo daquilo tudo. E cada vez mais gente vinha diariamente, de todas as partes do mundo, para testemunhar a via-crúcis do século XX, a confirmação da vitória do Espírito sobre corpo/mente, e para desfrutar a Paz que emanava de Bhagavan.

Após alguns meses, o ouvi dizer: "Pensam que sou um corpo e acreditam que estou sofrendo e morrendo. Que pena!". Aquilo foi uma revelação, para mim. Desde então, mudou completamente minha atitude mental, quando cuidava dele: parei de me torturar com pensamentos de que deveria estar sofrendo dores terríveis e que eu fracassava, como médico, e passei a concentrar-me no Silêncio/Paz que dele irradiava constantemente. Meu juramento acadêmico nada mais significava, pois finalmente percebera que nunca tive poder para salvar/curar vidas: sempre fui um instrumento do verdadeiro Salvador/Curador, cuja Vontade nenhuma vontade humana pode mudar.

Ramana falava pouco e agora, enfraquecido, menos ainda. Isto, porém, nunca foi um obstáculo na relação com aqueles que procuravam seu auxílio espiritual, pois seus ensinamentos eram transmitidos, principalmente, pelo Silêncio. Ele costumava garantir: "Basta ficarem quietos [mentalmente] e DEUS fará o resto. Este é todo o esforço que vocês precisam fazer". No entanto, vez ou outra, para consolar alguém que ainda não entendia o poder do Silêncio, ele respondia perguntas usando a voz.

Mais duas operações foram feitas, sem resultado positivo, e Bhagavan enfrentou-as com paciência, para não ofender os médicos encarregados. Um devoto, em desespero, suplicou-lhe: "Bhagavan, nada retarda o avanço da doença. Por favor, diz qual é o tratamento que devemos aplicar em teu corpo". Resposta: "Nunca pedi tratamento: foram vocês que decidiram fazê-lo. Está tudo certo, desde sempre. Deixem o corpo chegar ao fim, naturalmente". Esta resposta me lembrou o mesmo desapego de Jesus Cristo: "A carne é nada; o Espírito, sim, é VIDA".

Pessoas atônitas o pressionavam: "Bhagavan, tu, que curastes tantos, por que não curas a ti mesmo?". Com um sorriso benevolente no rosto, ele respondia algo assim: "Alguma vez afirmei ter poder de cura? Alguma vez afirmei que curo as pessoas? São vocês que acham isto". A mesma humildade de Jesus, que várias vezes disse: "Foi tua fé que te curou". Oh, vaidade das vaidades, que assola nossos pobres corações! Mais uma dura e divina lição, para todos nós. Lição de humildade das humildades e do caminho da Paz: aceitar a vontade do Altíssimo, sempre correta e justa, mesmo quando incompreensível...

O câncer continuava sua obra interna e o corpo foi ficando cada vez mais magro e fraco. Embora o tratamento paliativo estivesse sendo mantido, ninguém se atrevia a propor nova operação, porque grande número de devotos acreditava que ele não resistiria. Em termos de exemplo divino, porém, todos concordavam que aquela foi a época mais gloriosa de sua vida: o rosto/sorriso de Bhagavan, de tão sublime, já não era deste mundo, embora, por falta de força física, não mais conseguisse manter ereta, a cabeça.

Certo dia, cheguei aflito diante de Bhagavan, por causa de um problema particular que me parecia terrível e insolúvel. Contudo, ao observá-lo sentado com dificuldade, as pernas parcialmente cruzadas sob o corpo e a cabeça tombada para o lado, fiquei constrangido e pensei: "Ele tem um problema sem solução, e muito maior do que o meu; mas, aí está, calmo e... maravilha!, sorrindo para mim". Instantaneamente, meu problema murchou como um balão furado e assumiu sua verdadeira dimensão; então, entendi, sem probabilidade de erro, que o pânico é o responsável pela expansão de nossos problemas e que, como Bhagavan nunca entrava em pânico, não tinha problemas: nós, sim, imaginávamos que tinha. Naquele momento, já não havia aflição e necessidade de conselho/consolo externo; havia, tão somente, Paz Interior. Muitos que chegavam desesperados, buscando seu conselho/consolo, relatavam experiências exatamente idênticas à minha: ao olharem para seu rosto sobre-humano esqueciam perguntas e mazelas, percebiam que nada estava perdido e que seus problemas eram, na realidade, ninharias. Estes mesmos iam embora chorando, sim; mas, de esperança/alegria...

Várias tentativas foram feitas, para convencê-lo a mudar-se do salão público. A maioria dos devotos-atendentes achava que, após a primeira operação, Bhagavan não deveria estar disponível 24 horas por dia, como sempre estivera. Isto, todavia, ele recusou peremptoriamente: "Não posso decepcionar pessoas que vêm de longe, para me ver". Poucas semanas antes da morte carnal, porém, quando já não tinha forças para protestar, ele foi transferido para um pequeno quarto privativo e lá permaneceu até o fim.

O dia 14/04/1950 rompeu com a sensação generalizada de que seria o último. Desde a primeira operação, uns 14 meses haviam passado. A falta de fé na Justiça Divina (destino?) e no próprio Bhagavan era evidente e esquecemos o que ele garantira com firme convicção, pouco tempo atrás: "Dizem que estou morrendo; mas, não vou embora: estou aqui". Bhagavan sequer conseguia erguer a cabeça, do travesseiro. Durante a manhã, devotos e visitantes passaram silenciosos, em fila, diante da janela do quarto, na esperança de receber a graça de um último olhar dele. À noite, ao ouvir pessoas entoando canções devocionais do lado de fora, esboçou um sorriso, lágrimas de beatitude rolaram por sua face e a respiração parou, sem espasmos, discretamente...

Naquele instante de Paz, em meio ao desespero de alguns que estavam presentes, este que vos escreve novamente agradeceu: "Obrigado, Senhor, por me mostrar o caminho para ti!".

 

De volta para o futuro...

Homens como Siddhārtha, Jesus e Ramana não mentem, não erram, não nos enganam: podemos encontrar Buda, Cristo e Maharshi (isto é: PAZ), a qualquer hora e em qualquer lugar, lá no fundo de nossos corações. Mas, como chegar lá? Segundo Eles, basta mantermos a Consciência acima do ego...

 

 

13/09/2018

 

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