A MORTE

 

 

Este é um assunto do qual fugimos a vida inteira, porque preferimos nos iludir de que a morte existe para o resto do mundo, mas não para nós mesmos (isto é, para o nosso ego). Se você pensa assim, o melhor é não prosseguir com a leitura...

Muitas pessoas acham de mau agouro pensar em morte; mas, acredito que as consequências dependam da atitude mental. Se tal pensamento provoca angústia e medo, concordo que não deve nos fazer bem. No entanto, descobri, há algum tempo, que é possível pensar na morte, sem sofrimento e pessimismo.

A morte física/mental é a única certeza na vida e começamos a morrer no exato instante em que nascemos. Definhamos lenta e continuamente e estamos, hoje, um dia mais perto dela do que estávamos ontem, e não adiantam os paliativos da ciência/medicina e da psicologia: cedo ou tarde, eles serão derrotados e o corpo tornará ao pó. Esta verdade não deveria nos abater e entristecer, porque deve haver um bom motivo para que seja assim. Errado me parece revoltar-se contra a Justiça Divina e tentar mudar o que não pode ser mudado. Acredito que, quanto mais ferrenhamente lutarmos contra o inevitável, recorrendo a tratamentos estéticos rejuvenescedores (cirurgias plásticas, medicamentos, etc.) e a pensamentos positivos ilusórios, mais terrível nos será, o momento final. Então, sensato me parece decidirmos encarar, o quanto antes, o envelhecimento e a morte do corpo, como algo natural e necessário, no ciclo da Existência.

Refletindo sobre a questão, percebi que, não apenas o apego por corpo/mente (ego), mas, também, o apego pelas posses que chamamos de 'nossas', tornam tão apavorante a experiência da morte. Hoje entendo por que os Sábios não temem "o grande ladrão": Eles, espontaneamente, renunciam a tudo e, quando a hora chega, estão livres e prontos. Eles não estão acorrentados ao ego e seus prazeres e nem a passado/futuro, pois vivem no eterno "Aqui e Agora", onde não há vínculos mundanos. Nós (pessoas comuns), ao contrário, somos escravos do ego/mundo e nunca estamos prontos: precisamos de mais tempo para realizar sonhos e desejos pendentes e cumprir muitas obrigações (criar filhos, etc.). Além disto, há ainda o desespero provocado pela tardia certeza de perder todos os bens que conseguimos conquistar com tanto esforço. Sim, porque só então o homem descobre que de nada adiantam os seguros para automóvel, casa, iate, etc., e os planos de saúde, porque "o grande ladrão" nos rouba, sem possibilidade de ressarcimento, todas as aquisições mundanas, inclusive o tão querido templo de carne. Portanto, quanto mais apegos e posses, mais tenebroso é o sofrimento final. Infelizmente, a maioria só percebe isto tarde demais, apesar das constantes advertências de todos os Sábios. Então, assistimos a cenas deprimentes de moribundos chorando e implorando por ajuda, agarrando-se com todas as suas forças a quaisquer possibilidades de sobrevivência. Confesso que tenho dois sonhos e um deles é: que eu alcance autocontrole e espiritualidade suficientes para morrer serenamente, como fazem os animais ditos irracionais que, quando percebem a chegada da hora, simplesmente deitam-se e aguardam o fim. Sábios e Santos também nos deixaram sublimes exemplos, em Seus momentos finais: Bhagavan Ramana Maharshi abandonou tranquilamente o corpo físico, com um sorriso sereno nos lábios e lágrimas de beatitude nos olhos; São Francisco de Assis foi-se cantando suavemente o nome de Deus...

Embora não tenha a autoridade de quem venceu o apego carnal e, portanto, ainda não esteja pronto para a morte física, diariamente invisto alguns minutos para me lembrar, sem depressão, de que tudo que começa, um dia termina, inclusive esta vida. Espero que, quando minha hora chegar, esteja preparado e consiga manter-me calmo e interiormente atento, pois sei que este é um momento muito especial na vida do homem: quando não há mais a esperança de sobrevivência, o passado e o futuro deixam de existir e, então, o "Aqui e Agora" manifesta-se, sendo que, por um instante, temos a oportunidade de 'conquistar' o Reino de Deus, que, como afirmou o Cristo, é o único tesouro que jamais nos será tirado, nem mesmo pelo maior de todos os ladrões (a morte). Apesar de nunca ter estado cara a cara com ela, meditei bastante sobre esta situação específica e descobri, intuitivamente, que é assim; além disto, muitos testemunhos de sobreviventes confirmam que aquele momento pode transformar definitivamente, e para melhor, as nossas vidas, dependendo da atitude mental. O exemplo mais impressionante é aquele de um jovem comum de 17 anos incompletos, que, ao vivenciar com absoluta calma a experiência da morte, em poucos minutos realizou a Verdade e alcançou a meta da vida; hoje, Ele é mundialmente venerado como Bhagavan Sri Ramana Maharshi, o Sábio de Arunáchala.

Recentemente, acompanhei um processo de doença e morte por câncer e percebi que a vítima não soube aproveitar a oportunidade, pois permaneceu com a mente voltada para pensamentos e apegos mundanos, depositando as suas esperanças nos médicos e, não, Naquele que criou os médicos e a medicina. Aparentemente, o doente não estava pronto para aceitar a Vontade Divina. Esta experiência foi, para mim, um grande exemplo de como não devemos nos comportar, diante da morte...

 

Hoje em dia, percebo que podem ser perigosos os livros que narram 'milagres' de homens que vencem a morte física, ressuscitando ou vivendo saudáveis indefinidamente. Podem ser perigosos, pois os motivos talvez sejam erroneamente interpretados e o meio pode ser tomado como o fim. Se alguém interpretar que o episódio da ressurreição do Senhor Jesus indica que a vida física é o bem mais importante que possuímos, esta pessoa estará incorrendo em um sério erro. Em várias passagens dos Evangelhos, o Cristo afirma explicitamente que a carne e o ego (chamado por Ele de 'adversário') nada valem. Histórias de homens centenários, com aparência de jovens, podem estimular a prática de Ioga, não para a evolução espiritual; mas, sim, para a obtenção da juventude eterna... Os verdadeiros Sábios não nos enganam com falsos consolos e dizem claramente que todos os que nascem, fisicamente, vão envelhecer e, finalmente, morrer, retornando o corpo ao pó, de onde vieram. A solução para quem não quer morrer, diz o Sábio de Arunáchala, é não nascer...

 

Advertência final, que já deveria ter sido apresentada antes: o que foi exposto neste texto e em outros, publicados nesta web-página, não fará sentido para quem acredita que a morte do corpo é o fim de tudo. Todavia, não me sinto com convicção suficiente para abordar temas polêmicos como Reencarnação, Unicidade, Lei de causa/efeito (Destino) e Livre-arbítrio, já que, pelo menos atualmente, não tenho autoridade e sabedoria para isto.

 

 

Por mim, nada posso; mas, por Ti, EU POSSO.

 

04/02/2007

 

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