DEUS E O MUNDO

 

Desde pequenos, ouvimos que "tudo foi feito por Deus". No entanto, depois que crescemos e observamos como as coisas funcionam, é impossível não ocorrer esta dúvida: "Se, como dizem, Deus existe, é bom e tudo fez, por que há tanto sofrimento no mundo?".

O problema é que, em nosso atual nível de conscientização espiritual, é errado dizermos que Ele é o criador de tudo, pois estamos apenas repetindo palavras de terceiros; não as comprovamos, por experiência própria. Cristos/Budas têm autoridade para afirmar, com convicção: "O Poder Maior é Amor, e tudo fez e controla", porque Eles alcançaram a percepção de como opera a Existência. Jesus sabe que a Força Superior, chamada "DEUS" ("Pai Celeste"), criou todo o universo, inclusive o mundo material, captado pelos sentidos físicos; para as multidões, porém, proclama: "Eu venci o mundo!". Os Grandes Salvadores da Humanidade sempre adaptam, a Verdade, ao grau de compreensão daqueles que os ouvem. Jesus diz isto não para vangloriar-Se e, sim, para nos incentivar a transcender nossas ilusões, que ainda achamos ser "verdade". Ele garante que venceu o mundo e que todos podem alcançar esta vitória, isto é: o mundo deve ser encarado como o adversário que precisamos derrotar, se aspiramos encontrar autênticas Paz e Felicidade ("Reino de Deus"). E assim agiram, como descrito no livro "Atos dos Apóstolos", os seguidores do primitivo Cristianismo, até fraquejar e render-se ao "tentador" (o mesmo "adversário"), em troca de poder político, após poucos séculos de vida. Se continuarmos acreditando que o mundo é um amigo, que podemos confiar nele, que foi feito para gozarmos todas as suas delícias, etc., então nosso destino é idêntico ao daqueles que rendem-se/entregam-se a qualquer tirano conquistador: escravidão... e, bem sabemos, escravidão é sinônimo de sofrimentos sem fim...

Quem comprovou em seu coração, sem influência exterior, que Deus tudo fez, não se arrisca ao afirmar isto, porque transformou-se em um super-homem espiritual: é realmente forte, consegue dizer "não!" ao próprio ego. No entanto, a esmagadora maioria da humanidade corre grande risco, pois somos fracos e estamos prontos para aceitar esta cômoda adaptação do ensinamento: "Ele criou o mundo para o aproveitarmos, ao máximo". Quem assim pensa não gosta de proibições interiores e o único limite que impõe, a seus prazeres, é o medo de ser flagrado e condenado, pela justiça do homem, por cometer algum delito/crime. Este é um exemplo de como a sabedoria sagrada pode ser perigosa, quando interpretada com escassez de sinceridade e excesso de egoísmo.

Muitos dos que dizem: "Deus tudo fez", não percebem que, se isto é verdade, então a Criação inteira está interligada por um laço de irmandade divino, muito superior ao parentesco de carne/sangue, já que todas as manifestações da Criação seriam filhas do "Pai Celeste". No entanto, repetem: "Deus tudo fez" e, em seguida, matam, roubam e ofendem seus irmãos espirituais; repetem: "Deus tudo fez" e, logo após, cortam pedaços de um irmão espiritual e os lançam na churrasqueira ou na panela, antegozando a satisfação por comê-los... O mais sensato, portanto, é não tentarmos impressionar os outros, repetindo este ensinamento, até que verdadeiramente acreditemos nele, lá no fundo de nossos corações. Acho que não devemos menosprezar aqueles que estão atrás de nós, na caminhada espiritual, pois muitos estão na nossa frente; todavia, nem pensar em seguir maus exemplos: como interagir pacificamente com o mundo, sem a ele nos entregarmos, é o que precisamos aprender.

 

Não duvido de que há uma Lei/Ordem Universal, que tudo fez; mas, infelizmente, ainda não consegui transformar, este conhecimento intelectual, em Verdade Espiritual. Portanto, aqui na página "Os Destruidores de Ilusões", o mundo é considerado "o adversário", como ensinou o Cristo Jesus. No glorioso dia em que a graça da Compreensão me for concedida e tornar-se parte inseparável de mim mesmo, aí sim poderei afirmar, sem hipocrisia: "DEUS tudo fez; o universo inteiro é Sua divina obra". Tal certeza é possível porque, garantem aqueles que sabem, a Iluminação arrasa, instantaneamente, com a ignorância (ilusões), com a maldade e com o sofrimento: quem a alcança, nada mais precisa aprender e tão somente percebe Bondade e Justiça, no mesmíssimo mundo que acreditava ser mau e injusto, exatamente como ainda o consideramos. É impossível encontrar alguém que, devido ao próprio esforço espiritual, tenha atingido o status de legítimo "filho de Deus", mas que ainda se preocupe com crises financeiras, criminalidade, doenças, velhice e demais mazelas da vida. Para eles, o mundo é certo e justo, tudo é consequência da vontade divina, e nenhum ato divino pode ser mau ou prejudicial. Para eles, um assaltante é Deus sob forma humana; uma víbora, Deus sob forma não humana; um câncer, Deus sob a forma da morte, e esta nada mais é do que a renovação da Vida. Estão sujeitos às calamidades mundanas, assim como nós, pessoas comuns; contudo, nada os apavora, nada temem. Não importa onde seus corpos estejam, céu ou inferno: suas consciências permanecem nas alturas do "Reino de Deus".

A conclusão é sempre a mesma, sem possibilidade de erro: antes que possamos perceber o "Reino de Deus" (Paz/Felicidade), fora de nós, é indispensável que o encontremos dentro de nós, em nossos corações. Não há registros, na longa história espiritual da humanidade, de que o caminho inverso (Paz/Felicidade exterior e, depois, interior) seja realizável...

 

 

OBS.1: Espiritualmente, o termo "coração" não tem qualquer relação com o órgão físico. Pelo que já percebi, em mim, é um tipo de consciência desvinculada da capacidade mental/intelectual, que manifesta-se quando a consciência habitual está calma, sem a perturbação constante dos pensamentos ("Aquieta-te e saberás o que é Deus" - Salmo 46).

 

OBS.2: Espiritualmente, o termo "mundo" é muito mais abrangente do que supõe o intelecto humano, filosófico ou científico. É impossível apreender o seu significado, apenas ouvindo sermões e palestras, cursando faculdades ou, mesmo, lendo os Livros Sagrados; a única atitude que esclarece a questão é voluntariamente interromper a correria/loucura cotidiana, voltar a atenção para dentro de si mesmo e meditar/orar, até que despertem naturalmente, no coração, as respostas para esta e também para as demais questões fundamentais da Vida. Não adianta ter pressa, pois ela é inimiga da naturalidade e da sinceridade. Também não adianta desligar/resfriar o caldeirão mental indo dormir, porque, ao acordar, a alma continua tão ignorante quanto antes. É indispensável dizermos "não!", conscientemente, à ansiedade que nos inferniza, consequência da errônea crença de que precisamos atingir metas/objetivos, concretizar sonhos/desejos e, para piorar o que já é péssimo, fazer tudo o mais rapidamente possível. É indispensável dizermos "não!", conscientemente, à infantil necessidade por novidades e conhecimentos mundanos, pois ainda acreditamos ser bom, entulhar o princípio pensante ("mente") com coisas que nos parecem agradáveis e úteis. Dizer "não!", para si mesmo (ego), é equivalente a uma caderneta de poupança, a qual exige sacrifícios e economia do poupador; mas, aos poucos, o saldo espiritual vai aumentando, até ser suficiente para a aquisição dos bens mais preciosos da Vida: verdadeiras Paz e Felicidade.

 

 

21/03/2016

 

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