"NÃO RESISTAIS AO MAL" (2)

 

 

Preferencialmente, leia antes os textos "Não resistais ao mal" e "Vencer a vida".

 

O ensinamento "Não resistais ao mal" é extremamente perigoso, quando fraquejamos diante do ego/mente. O adversário está sempre tentando nos convencer de que as nossas tão queridas sensações/emoções, boas recordações, simpatias e opiniões são do "bem" e preciosas companheiras, das quais não precisamos renunciar. O verbo "resistir" também é interpretado de forma a atender aos interesses pessoais (do ego) e isto resulta em opiniões de que não precisamos lutar contra o mal interior. Outros obstáculos, no caminho da evolução, podem tornar-se as auspiciosas mensagens: "Tu és Aquilo" e "Ninguém é pecador". Quem já está na busca, sabe que o pronome "Tu" não se refere à sua personalidade (ego), mas à sua real identidade divina; o mesmo vale para o "ninguém", da segunda mensagem. No entanto, se "Tu" e "ninguém" forem identificados com o(a) fulano(a) de tal, que consta na certidão de nascimento, grande queda pode sofrer a pessoa, pois, então, ela se convencerá de que é pura, perfeita e, mais perigoso ainda, poderosa, sendo que nenhum esforço espiritual precisa iniciar: o Pai deixou-lhe uma grande herança e sua missão na vida é, simplesmente, gozar o seu status de "filho(a) do Rei".

À luz da experiência descrita no texto "Vencer a vida", apresento um complemento, para a anterior interpretação pessoal do aforismo-título: "Não resistais egoisticamente ao mal, pois sereis contaminados por ele".

Tenho meditado bastante sobre o assunto e, em uma ocasião desta prática, vivenciei duas cenas marcantes para a evolução do ser humano: na primeira, vi o Senhor Buda, sentado sob a árvore baniana, sendo tentado pelo mal, que se apresentou sob os mais irresistíveis e convincentes disfarces; na segunda, vi o Senhor Jesus, por 40 dias no deserto, violentamente fustigado pelo mesmo inimigo. Em ambos os casos, houve resistência e luta interior, mas agora percebo que Eles enfrentaram sinceramente o adversário da Vida, pois as Suas atitudes não foram motivadas pelo desejo de resistir ao mal. Os desejos, os prazeres, o mal, o ego e a mente são a mesma coisa e, portanto, quando desejamos resistir ao mal, estamos fortalecendo ainda mais o adversário.

Acredito que devemos buscar a completa compreensão interior deste precioso ensinamento, pois sinto que a solução para as nossas vidas está escondidinha naquelas poucas palavras. Acho que o Sábio Ramana Maharshi apresentou um eficiente método para a sua utilização prática: quando o mal manifesta-se em nossas mentes, devemos observar de onde vem este sentimento e "quem" (dentro de nós) é influenciado por ele. Esta é uma das formas corretas de não resistência. Quanto ao que é realmente 'mal', isto cada um deve descobrir, por si mesmo. Contudo, considerando a experiência pessoal, posterior à elaboração do texto "Não resistais ao mal", acredito que o mal possa ser identificado através de sua imediata reação em forma de prazer/dor que nasce na região abdominal, na altura do umbigo, provocando o chamado 'frio na barriga'. O problema é estar sempre atento a esta sensação e/ou conseguir resistir a ela (transcendê-la) , quando é prazerosa... 

A atenção constante sobre o inimigo interior é indicada por todos aqueles que atingiram a meta ("Buscai, antes de tudo, o Reino de Deus") e, na opinião do digitador, isto requer o desenvolvimento das virtudes discernimento, desapego e disciplina. Novamente, o Sábio Ramana nos diz claramente como proceder: pelo maior tempo possível, a  mente deve ser saturada com a meditativa pergunta "Quem sou eu?". Não deveríamos aceitar que ela se desviasse do sentimento resultante ("eu", individualidade), exceto para a execução das atividades vitais da vida cotidiana. Hoje em dia desconfio que até mesmo o ato de escrever/ler este ou qualquer outro texto espiritual não é, em última instância, "atividade vital"; então, neste momento, é provável que estejamos (quem escreve e quem lê) desperdiçando precioso tempo com atividade intelectual, quando poderíamos estar praticando o autoconhecimento. Se não consigo manter-me continuamente atento à questão definitiva "Quem sou eu?", não é porque o ensinamento seja errado ou impossível de ser realizado, pois o Sábio de Arunáchala nunca erra, mas devido à imaturidade espiritual e apego ao habitual caldeirão mental, mesmo sendo evidente que ele é prejudicial em minha vida. A simples cogitação de dedicar-me, ininterruptamente, à autoinvestigação proposta por Ramana, provoca uma sensação de vazio em mim, pois, sem os queridos companheiros de longa e longa data (pensamentos, sentimentos, opiniões e demais atributos do ego), parece que a vida perde o sentido... Agora torna-se claro por que Arjuna ficou extremamente triste e desconsolado, por ter que lutar contra os seus amados parentes e amigos, na alegórica guerra descrita no Bhagavad-Gîtâ. Os 'parentes' e 'amigos' de Arjuna, são os mesmos 'companheiros' que percebo dentro de mim mesmo. Através do discernimento/desapego, o discípulo de Krishna percebeu o seu engano (de classificar como 'Bem', aquilo que, na realidade, é 'mal') e derrotou o 'exército' adversário, sendo que, a mesma guerra espiritual, todos nós estamos destinados a enfrentar... No meu caso, ela já começou e me sinto no campo de batalha, mas devo tentar manter a serenidade, não desejando alcançar a vitória hoje ou amanhã, pois ela só ocorrerá na hora certa.

Quando 'tropeçamos' em algum ensinamento dos verdadeiros Sábios da humanidade, é normal que a mente busque e encontre uma justificativa aceitável para a nossa fraqueza; mas, perceber que o erro é nosso e não Deles, me parece já ser um sinal de sincera (não egoísta) resistência ao mal...

 

 

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24/04/2008

 

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