PARAR

 

"Onde o movimento (mental) cessa, DEUS começa"  -  Paramahansa Yogananda

 

 

Ainda não encontrei palavra tão curta e abrangente, que poderia ser sugerida aos buscadores, do que esta: "Parai!".

Paremos de pensar no passado, pois, inconscientemente, transformamos em saudosas e queridas até mesmo as experiências que, na época, nos pareceram ruins. As lembranças, apesar do sofrimento/tristeza que provocam, por sabermos que provêm de coisas que se foram e não voltam mais, hoje são inexplicavelmente bem-vindas e recordadas com carinho. Então, por apego ao prazer melancólico do saudosismo, aceitamos este hábito mental e nos contentamos com as migalhas de alegria que ele proporciona. O problema desta aceitação é que continuamos servindo ao adversário da Vida (nosso próprio ego/personalidade) e, como alertou o Senhor Jesus, ninguém pode servir a dois senhores: quem serve a si mesmo, não ama a DEUS e, portanto, não pode servi-LO. O sentimento de amor-próprio, tão estimulado e venerado, mas que é puro e simples egoísmo, faz do mundo uma selva feroz onde "é cada um por si", isto é: cada um fazendo o que for necessário para amar-se, mesmo que tal atitude prejudique os demais seres vivos. Não te iludas: se vives para satisfazer teus caprichos e preferências; se não consegues resistir aos impulsos de tua natureza inferior; então, amas as mundanidades e, não, o Altíssimo. Talvez ames o deus que tens em mente e, com toda certeza, ele também te ama; mas, isto tudo não passa de criações mentais. Este mesmo "deus" anda em muitos corações por aí, incitando gente a massacrar inocentes, explodir prédios, etc.

Apesar de evitar as recordações, por distração algumas ainda me invadem; contudo, percebo que, hoje em dia, a maioria está provocando reação contrária à normal: tem sido mais frequente o constrangimento por todos os absurdos que já pratiquei na vida, do que o saudosismo sentimental. O feitiço voltou-se contra o feiticeiro e, ao invés de continuar caminhando mundo adentro, estou buscando a porta de saída... Também percebi que, para buscar esta porta, não é necessário sair do lugar; aliás, quanto menos ficarmos mentalmente vagando, melhor. Parar: esta é a melhor atitude que os buscadores podem tomar. Ao longo dos anos, venho descobrindo que todas as respostas realmente importantes estão dentro de nós, mas elas só se manifestam quando paramos e criamos as condições indispensáveis para a mente acalmar-se: esquecer, pelo menos temporariamente, sonhos/desejos pendentes e prestar atenção no Silêncio Interior. Quem já ouviu o Silêncio, mesmo que uma única vez, começa a se desencantar com este mundo barulhento e agitado. Algumas pessoas acham que isto é prepotência e egoísmo... Paciência... Cada um tem o seu destino e prefiro ficar calado.

Paremos de planejar o futuro; paremos no "Aqui e Agora", que não é o mesmo que "presente": este ainda é um fenômeno mental (relativo), enquanto aquele é algo superior. Espero tornar-me forte o suficiente para continuar parado, mesmo se, "no futuro", vierem a desabar os céus ou a afundar as terras. Paremos, embora o mundo siga em frente, pois ele não pode parar, não pode descansar, jamais; se as pessoas materialistas pararem, o futuro as atropela sem piedade. Duas delas já me perguntaram como deveriam começar  a praticar meditação e, para ambas, sugeri que parassem e simplesmente observassem o próprio processo respiratório. Nenhuma delas conseguiu fazer isto, nem por alguns segundos... Então, descobri que apenas o fato de conseguir manter o corpo conscientemente imóvel por uns poucos minutos, já é um grande avanço espiritual. Sendo assim, estou parando e a consequência evidente é que fiquei para trás, fisicamente só. No entanto, esta constatação não me entristece ou assusta, pois, para que seguir o mundo, se ele não sabe para onde vai? Como também ainda não sei para onde devo ir, melhor é ficar aqui parado, aguardando a resposta. Assim, pelo menos, não me extravio ainda mais... Vejo quase todos correndo para lá e para cá, sem chegar a lugar algum, e não quero mais participar desta tragicomédia.

Também já acreditei que nossa missão aqui na terra fosse "correr atrás da felicidade", "aproveitar tudo de bom que a vida nos oferece". Esta crença, na verdade, me fazia sofrer muito mais do que a saudade, que às vezes me assalta, por tudo o que voluntariamente abandonei. E isto pode ser percebido por todos: acreditar que precisamos de novidades todos os dias, que precisamos alcançar objetivos, que precisamos nos divertir/distrair, é exatamente o que nos mantêm infelizes, insatisfeitos e estressados. O sofrimento, pelo qual passamos, origina-se da crença de que viver é aquilo que nos ensinam desde a infância e que vemos, as pessoas à nossa volta, fazendo ou tentando fazer. "Olha que dia lindo, lá fora! Todos estão se divertindo e aqui estás, desperdiçando a vida, esperando a morte chegar... Olha quanta gente fazendo fortuna e sucesso, enquanto levas esta vidinha medíocre. Faz alguma coisa, antes que seja tarde demais!". Quem nunca ouviu algo parecido, vindo do próprio ego? Em momentos assim, de terríveis tentações, somos colocados à prova pela Vida e, infelizmente, quase sempre somos reprovados. Para mudar isto, não devemos entrar em desespero quando nos assalta a sensação de que precisamos realizar algo grandioso ou prazeroso, para conseguir "ser alguém", para a vida valer à pena, pois este impulso é filho da mentira e a mentira não sobrevive por si só: ela depende de nosso consentimento, para sobreviver. Apenas a Verdade sobrevive por si só. Por experiência própria sei que, se ficarmos "parados" durante as tentações, sem reagir, se aguentarmos firmes como Buda, meditando sob a árvore baniana, e Cristo, orando no deserto durante 40 dias, o impulso/desejo vai enfraquecendo até desaparecer, sem deixar qualquer sequela ("Não resistais ao mal"). Podemos suportar a investida do mal interior e vencê-lo, utilizando um destes procedimentos: 

1) observando a sua atuação dentro de nós, como se fôssemos um mero espectador;

2) desviando toda a atenção para outro fenômeno interno (a respiração, por exemplo);

3) nos concentrando, em oração sincera Àquele que consideramos superior ao mal.

Repito o que já comprovei várias vezes: não importa o método de defesa passiva que for utilizado, o mal vai perdendo força, até desaparecer, e a "sequela" resultante é que estaremos mais experientes, fortes e confiantes, quando formos novamente provados. Nunca me arrependi por não ceder aos impulsos; ao contrário: isto acontece, sim, quando fraquejo e me entrego a algum...

Não consigo imaginar qualquer situação da vida, em que "parar" não seja a melhor solução. Mesmo que a morte esteja diante de nós, ou a vejamos aproximando-se, ainda assim permanecer "parado", tranquilo, é tudo o que os sinceros buscadores deveriam fazer...

 

 

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Não resistais ao mal (2)

Não resistais ao mal (3)

 

   

Senhor: dá-me força para parar; então, quando Te dignares a fazer, desta alma, uma serva Tua, saberás onde a encontrar...

 

01/10/2010

 

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