O POÇO

 

 

Há alguns anos, ocorreu-me a parábola descrita a seguir. Esta opinião talvez seja útil para os neófitos buscadores; mas, é provável que nenhuma novidade haja, aqui, para os mais experientes.

 

Percebo aquilo que chamamos 'vida', como um profundo poço. Por motivo incompreensível, somos levados a entrar nele e descer precariamente, nos agarrando às suas paredes, abandonando a Luz e mergulhando na escuridão. Analisando em mim mesmo esta atitude, provocada pelo que as religiões chamam "pecado original", "ilusão cósmica", etc., identifico que havia uma promessa subconsciente, uma esperança de que, no fundo do poço, estaria armazenada a, vamos dizer, "Água da Felicidade". De onde vem este instinto, não sei; mas, observando atentamente o mundo, concluo que ele existe em todos os seres humanos.

A maioria está descendo: uns ainda estão no começo da jornada; outros, vão bem abaixo e já se habituaram/conformaram com as trevas cada vez mais profundas, esquecidos da Luz que existe lá em cima. Todavia, há aqueles que já chegaram ao fundo do poço e constataram terem sido enganados, pois não há Vida lá embaixo; o poço está seco e só se vê lama e morte por toda parte. Posso falar com autoridade, sobre o que existe no fundo do poço, pois comprovei por mim mesmo.

É difícil descrever a decepção e a perplexidade, que acomete quem descobre que aquele enorme esforço foi em vão. Então, a jornada poço abaixo aparece, diante da visão interior, em retrospectiva. Lembrança de tudo o que fizemos, para chegar o mais rapidamente possível ao destino: como passamos por cima do pessoal mais lento; como exploramos os mais ingênuos, fazendo com que eles nos carregassem, para nossa descida ser menos árdua, etc. Lembrança e arrependimento...

Depois de algum tempo no fundo do poço, todos percebem que não resta outra alternativa, senão encarar com coragem a subida, em direção à Luz de onde viemos. A tarefa é gigantesca: descer é muito mais fácil do que subir; estamos sobrecarregados pelo lixo que "catamos" pelo caminho; e, para dificultar um pouco mais, há o fluxo enorme de gente que está descendo. Entretanto, a recordação daquela Luz, que só então percebemos ser a verdadeira/eterna Felicidade que buscamos, nos dá a força e a determinação necessárias.

Cuidadoso deve ser, quem está subindo, para não ser abalroado pela multidão que vem descendo, e acabar sendo lançado novamente ao fundo do poço. Toda a atenção deve ser mantida na escalada; não devemos nos distrair, tentando convencê-los de que não há Vida, lá embaixo: ninguém vai acreditar e, pior, podem irritar-se, por tentarmos destruir as suas ilusões, e nos empurrar de volta para o abismo. Reconheço que isto parece indiferença ou maldade, mas pensar assim é um equívoco e mais um fardo dificultando a subida; um dia, teremos que nos livrar desta opinião. Nossa própria experiência, durante a descida, deveria nos ensinar que cada um precisa, por si mesmo, comprovar que no fundo do poço só tem lama; isto porque, naquela fase, nós também ignoramos os alertas dos que vinham subindo, e continuamos descendo (OBS.: a expressão "naquela fase" indica período da Existência e não, necessariamente, desta vida). Por Amor, Grandes Almas que conseguiram retornar à Luz, entram novamente no poço, para consolar aqueles que chegaram ao fundo, fortalecendo-os para a jornada de volta; mas, nem mesmo Eles, conseguem convencer os que ainda estão no caminho descendente...

Outro perigo ao qual estamos sujeitos, durante a ascensão, é relaxarmos a atenção e, devido ao hábito extremamente enraizado, fazer meia-volta, tornando a descer. Podemos demorar para perceber que estamos novamente no caminho errado e, então, teremos adiado ainda mais o retorno à Luz.

À medida que a jornada ascendente prossegue, descobrimos que as coisas que carregamos servem para nada, além de dificultarem ainda mais a subida. E, embora muito apego tenhamos a elas, percebemos que precisam ser jogadas fora. Assim, aos poucos, vamos ficando mais leves e menos dura vai se tornando a escalada. Contudo, por aqueles que tornaram à Luz e voltaram ao poço, ficamos sabendo que, para chegar lá em cima, vamos ter que lançar tudo fora, inclusive a vida, tal qual a conhecemos (não a verdadeira Vida que, por enquanto, nos é desconhecida). Eles também nos alertam para que nos concentremos na decisão de retornar à Luz, sem interromper a escalada; não devemos perder tempo, especulando/filosofando sobre a razão das coisas serem assim, e imaginando como iluminar a escuridão do poço: se esta fosse a vontade de quem o construiu, Ele mesmo teria feito isto, pois é um absurdo supor que o Grande Arquiteto poderia cometer algum erro de projeto, ou esquecer dos detalhes, de Sua obra.

 

 

Senhor: justos são os Teus desígnios.

 

20/12/2009

 

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