RELATIVIDADE E REALIDADE

 

 

Conheço apenas os princípios da Teoria da Relatividade, de Einstein, mas acredito que ela poderia ser assim resumida: todos os fenômenos do universo são relativos, exceto a energia chamada "luz". Com o aprofundamento da meditação/autoinvestigação, gradativamente o buscador vai percebendo toda a relatividade que o cerca, mesmo que nunca tenha ouvido falar sobre aquela teoria. Acredito que Einstein tenha chegado ao ponto máximo que o intelecto humano poderia alcançar, na tentativa de explicar o inexplicável. Não vale a pena perdermos tempo buscando novas causas para isto ou aquilo, pois a vida é curta e, a estrada da evolução humana, longa. Conhecimento intelectual, conceitos e opiniões não ajudam na busca espiritual; ao contrário: quanto mais conhecimento, conceitos e opiniões, mais orgulho, mais curiosidade e sede por novos conhecimentos, mais atividade mental desnecessária e desgastante e menos paz. Por mais que estudemos, nunca saberemos tudo e sempre haverá alguém que sabe mais do que nós e isto causa decepção e sofrimento. Quanto mais estudamos, mais percebemos quão pouco sabemos e, então, mais sofrimento ainda... Reparem que os Sábios são quase iletrados; eu nunca soube de um verdadeiro Sábio com diploma de curso superior. Contudo, a história nos mostra, estes grandes homens fazem calar os doutores e os eruditos, quando o tema é "Existência" (os Sábios não desperdiçam tempo e energia com outros assuntos). Não estou criticando a alfabetização e a cultura, mas vou resumir a questão parafraseando o Grande Instrutor: "O conhecimento existe para o homem e, não, o homem, para o conhecimento". O conhecimento, em si mesmo, não é bom nem ruim: depende de como é aplicado. O mesmo conhecimento que cria medicamentos, cria armas de extermínio em massa...

Dizem os Sábios que devemos nos esforçar apenas para alcançar o Eterno e Absoluto, pois o que é temporal e relativo não é real e, portanto, não vale a pena ser buscado. Todas as aquisições mundanas (dinheiro, bens, saúde, etc.), que nos esforçamos tanto para conquistar, nos serão tiradas, cedo ou tarde. Apenas o que existe por si só, é real e eterno, e merece o nosso esforço. O problema para nós, não-sábios, é conseguirmos identificar aquilo cuja realidade não é relativa. Segundo o ensinamento milenar, o método é observar os mundos exterior e interior e ir eliminando tudo o que é temporário e relativo; o que restar, ao final desta autoinvestigação, é a Realidade. Por exemplo: o corpo, veículo material da consciência deste digitador, um dia vai desaparecer, assim como esta consciência e, portanto, pelo critério dos Sábios, nenhum dos dois pode ser considerado real, nem mesmo agora. Após muito meditar a respeito, consegui chegar a algumas conclusões, talvez mais acessíveis à nós, pessoas comuns, do que a verdade nua e crua sobre a Realidade, e vou tentar expressá-las em palavras. Daqueles cujos ensinamentos me tocam, o Sábio que mais vezes respondeu sobre o assunto presente foi o sublime Bhagavan Ramana Maharshi. A Ele, pois, peço inspiração e agradeço, respeitosamente.

 

Neste momento, paro de digitar e observo as percepções que chegam a esta consciência objetiva: imagens, sons e aromas (do mundo exterior); respiração, atividade cardíaca, etc., referentes ao mundo interior. Como duvidar da realidade disto tudo? Podemos começar a perceber que alguma coisa está errada, se analisarmos o que acontece quando estamos dormindo. Quais das percepções acima, estão presentes neste estado? A resposta é: nenhuma, porque aquela consciência "eu sou fulano de tal", tão real para nós e que recebe todas as informações sensoriais quando estamos acordados, está ausente no sono profundo (sem sonhos). Corpo físico, mente, família, casa, trabalho, preocupações e tudo o mais que conhecemos, não existem no estado de sono. Contudo, a pergunta mais importante é: se o 'fulano de tal' está ausente, quem somos, enquanto dormimos? Será que deixamos de ser nós mesmos, durante todas as noites? Na tentativa infantil de refutar o irrefutável, buscamos, nos outros, a confirmação de nossa existência, durante o sono. O argumento mais usado, por quem vincula sua identidade ao corpo físico, é: "Apesar de estar dormindo e desligado de mim mesmo, as pessoas que estão acordadas confirmam que não deixei de existir, que o meu corpo continua lá, deitado na cama". Este argumento não pode ser usado, porque, entre outros motivos, aquelas pessoas que confirmam a existência corporal de quem dorme, fazem parte da mesma 'existência' que ela está tentando provar que é real e, portanto, tais testemunhas não são imparciais e confiáveis. Durante um sonho, nos acontece as coisas mais incríveis: podemos voar, etc., e nenhum dos participantes do sonho estranha estes fenômenos. Se você, no sonho, perguntasse a um dos personagens do mesmo sonho, se aquilo tudo é real, se você existe mesmo, a resposta seria a mesma daquela, acima: "Sim, é claro que você existe; não estou vendo-o diante de mim?". Este testemunho não é menos válido que o anterior, porque, novamente, quem responde está no mesmo plano de realidade de quem perguntou...

Existe, também, argumentação semelhante para tentar provar a realidade absoluta do mundo à nossa volta: "Embora eu esteja dormindo e, portanto, não veja e sinta o mundo, as pessoas que estão acordadas confirmam que ele continua existindo". Mesma conclusão do parágrafo anterior: as testemunhas fazem parte da 'realidade' sob suspeita e também são suspeitas. Só o fato da pessoa admitir que não vê e não sente o mundo durante o sono, já demonstra que ele não é real em si mesmo: se tivesse realidade própria, nunca deixaria de ser visto e percebido (mais esclarecimentos adiante).

O Sábio de Arunáchala afirma que a única diferença entre realidade-sonho e realidade-desperta (ou estado de vigília, isto é, percepção e interação com o mundo à nossa volta) é que, nesta última, há uma continuidade maior de consciência. Esta diferença é uma faca de dois gumes: como possuímos apenas duas 'realidades' mentais e, uma delas (estado de sonho) é facilmente identificada como irreal, ao despertamos (o que é bom), automaticamente o estado de vigília ganha o status de 'realidade absoluta' (o que é ruim), apesar dele também não ser contínuo, pois é interrompido quando dormimos (com ou sem sonhos). Outras consequências da diferença de conscientização entre sonho e vigília:

1. Raramente há relação entre os sonhos, enquanto que, após o período de sono, o estado de vigília prossegue do ponto em que parou, quando adormecemos. Esta sensação de continuidade, apesar da descontinuidade do sono, torna difícil a aceitação da irrealidade do mundo-vigília, enquanto aceitamos facilmente a irrealidade do mundo-sonho;

2. As recordações também aumentam a impressão de realidade da vigília: lembramo-nos perfeitamente de muitos fatos do distante passado, mas, raramente, nos lembramos do que aconteceu no sonho da semana passada... Concluindo: tudo nos leva a crer, durante o estado de vigília, que vivemos na realidade absoluta. Devemos colocar sob suspeita esta certeza pois, repetindo: durante o sonho também acreditamos estar no mundo real. Assim como, no sonho, o sonhador é enganado pela perfeita e harmoniosa criação mental em que está mergulhado, de forma idêntica, neste exato instante, a mente usa os mesmos artifícios para continuar nos enganando...

Este erro básico, de acreditar que o real relativo (irreal) é a Realidade, é, segundo os Sábios, a causa de todos os sofrimentos da vida, porque estamos atribuindo valor absoluto a algo que não o é. Por exemplo: um Sábio nunca se desespera diante das calamidades da vida, pois considera esta realidade-vigília tão irreal (relativa) quanto a realidade-sonho. Nós, pessoas comuns, ao contrário, entramos em pânico ao menor problema, porque atribuímos muito mais valor, à realidade-vigília, do que ela, na verdade, possui. Não perca tempo, argumentando que você conhece muito bem as dificuldades de sua vida e que elas são reais. Todos enfrentam problemas, mas os Sábios nos apresentam a solução definitiva para eles. Esta diferença de pontos de vistas, sobre o valor da realidade-vigília (isto é, daquilo que chamamos 'vida'), permite que Eles vivam permanentemente em Paz, enquanto nós...

A questão da relatividade do conceito "realidade", talvez seja melhor compreendida através de um exemplo clássico: o da corda e da cobra (parábola originada na Índia, país onde milhares de pessoas morrem, anualmente, picadas por cobras; o pavor instintivo por este réptil, está profundamente enraizado na mente do povo indiano). Vamos à parábola. Ao abrir a porta de uma sala escura e se deparar com um pedaço de corda no chão, a pessoa vai entrar em pânico e fugir precipitadamente, achando que aquilo é uma cobra. Após se afastar do local, ela vai parar e pensar: "Escapei por pouco..." O engano de acreditar que a corda é uma cobra, vai marcar a sua vida, pois o incidente sempre será lembrado, quando situações semelhantes ocorrerem. Reparem bem: não havia cobra alguma na sala; simplesmente a pessoa acreditou que havia e, por isto, a falsa cobra tornou-se verdade para ela. Se alguém, após ela, entrar na mesma sala e acender a luz, verá que é apenas uma corda. Contudo, esta segunda pessoa não conseguirá convencer a primeira, que dirá: "Tenho certeza do que vi; quando você entrou, a cobra já tinha ido embora". Conclusão: enquanto a 'verdade' da cobra existir, a Verdade da corda permanecerá oculta pelo erro. Da mesma forma, enquanto acreditarmos na realidade que nos rodeia, a Realidade Absoluta (Reino de Deus) não será percebida. É impossível acreditar em duas 'verdades' contraditórias sobre o mesmo fato: ou acreditamos na cobra, ou acreditamos na corda; da mesma forma, ou acreditamos no mundo, ou acreditamos no Reino de Deus. Não há meio-termo, nos previnem os Sábios: enquanto perdurar o erro primordial sobre a Realidade, nunca encontraremos a Paz e a Felicidade tão sonhadas. Enquanto prevalecer a ilusão da verdade sobre o mundo, a mente permanecerá acorrentada a interesses mundanos (busca de prazeres e realização de sonhos e desejos) e não ansiará pelo Reino de Deus (Paz e Felicidade). Como afirmou o Cristo: "É impossível servir a dois senhores: ou venera-se o primeiro e odeia-se o segundo, ou odeia-se o primeiro e venera-se o segundo; não podeis servir a Deus e às riquezas (mundo)".

Coloque-se no lugar da primeira pessoa da parábola e sinta como seria forte, em você, a certeza de que a corda é uma cobra; depois, compare esta certeza, com aquela sua outra certeza de que tudo à sua volta (mundo) é real em si mesmo. Provavelmente, você vai perceber que estas duas certezas teriam a mesma força, embora, pelo menos uma delas (a da cobra), saibamos que é falsa. Da mesma forma, não estaremos nós, neste exato momento, sendo vítimas de um engano semelhante àquele cometido pela primeira pessoa da parábola? Apenas se ela reunisse coragem para voltar o mais rapidamente possível àquela sala e, ao acender a luz, encontrasse a corda no mesmíssimo lugar, poderia acreditar que se enganou. Se você estiver disposto(a) a encarar desafio semelhante, isto é, acender a luz da Verdade para tentarmos desvendar, juntos, a realidade do mundo, podemos prosseguir (juntos, sim, porque me incluo entre as vítimas da ilusão). Caso contrário, continue a vida de sempre, mas não reclame que é um injustiçado(a), por nunca ter encontrado paz e felicidade; a culpa é sua, pois está procurando por elas nos lugares errados. A Verdade é esta: cada um é o único responsável por tudo o que acontece em sua vida. Exemplo: se alguém que não conheço, chegar aqui e agora, atirar em mim e me matar, a culpa é minha, por ter me colocado na trajetória do projétil. Por mais absurdo que pareça, medite a respeito e você começará a perceber que não há injustiças no mundo. Os Sábios confirmam a Justiça Divina. Diz o Senhor Buda: "Vós sofreis porque quereis". Diz Bhagavan Ramana Maharshi: "O próprio homem colocou-se nesta lamentável condição; ele, portanto, que trate de libertar-se". É claro que esta Verdade sobre a autoculpa, não pode ser aplicada na sociedade: se alguém mata um outro, não é o morto que deve ir para a prisão, mas, sim, aquele que o matou. As leis são um mal necessário: menos mau com elas, do que sem elas. Entretanto, não vamos perder tempo com leis e jurisprudências mundanas, que são tão relativas e temporárias quanto tudo o mais que conhecemos...

Acredito que a maior barreira deve-se ao uso do termo "irrealidade", pura e simplesmente, como encontramos em alguns livros. Acho que usar a expressão "não existe por si só" torna a aceitação menos difícil. Por exemplo: aceitar que este corpo, esta consciência objetiva e o mundo à minha volta não existem por si só é menos complicado do que tentar convencer a mim mesmo de que eles são irreais. É relativamente fácil perceber que eles não tem realidade própria: observe-se atentamente antes de adormecer, lembrando-se de fazer a mesma coisa ao acordar. Se corpo, consciência e mundo existissem incondicionalmente, você os perceberia em qualquer estado: vigília, sonho ou sono. Entretanto, a verdade é outra, como todos podem comprovar: em vigília, somos corpo e consciência do 'fulano de tal' e vivemos neste mundo que agora percebemos; no sonho, somos corpo e consciência do sonhador e vivemos em um mundo-sonho; finalmente, no sono, não há corpo, consciência objetiva ou mundo. É evidente que, considerando estes fatos consumados, o corpo/consciência que está digitando e o corpo/consciência que está lendo este texto, não existem por si mesmos, pois dependem de alguma coisa para serem percebidos. Sim, devem ser percebidos por algo dentro de nós, que está acima deles (corpo e consciência); do contrário, como poderíamos saber que desaparecem e reaparecem? Quando você acorda, diz: "Eu dormi"; então, algo dentro de você manteve-se atento, percebendo que a consciência objetiva desapareceu e retornou, após algumas horas. O reaparecimento do mundo, que consideramos real em si mesmo, é, na verdade, condicionado à consciência-vigília (objetiva): quando ela desaparece, ele também desaparece; quando ela retorna, o mundo reaparece. Isto deveria ser suficiente para nos convencermos que o mundo não existe por si só. Por mais incrível que pareça, nós não estamos no mundo; o mundo é que está em nós. Resumindo: o mundo que percebo à minha volta, neste instante, depende da consciência que está digitando este texto, para existir, e, esta consciência, depende de algo dentro de 'mim', para também existir...

Dizem os Sábios que este 'algo' interior, a Testemunha, é a única realidade absoluta e incondicionada, porque está sempre presente, não importa se estamos dormindo, sonhando ou acordados (em vigília). Repetindo o que já foi mencionado em outro texto: embora "Aquilo" esteja sempre presente, permanece oculto, devido à incessante atividade mental. Se o céu permanecesse indefinidamente coberto por nuvens pesadas, não saberíamos que existe o Sol, mas ele continuaria existindo assim mesmo. Descobririam o astro-rei apenas aqueles que se elevassem acima delas. E, quando eles, para o bem dos demais, transmitissem a boa nova da descoberta, seriam tachados de loucos e ouviriam dos céticos: "No céu só há nuvens, nada mais". Da mesma forma, apenas descobrirá "Aquilo" que a maioria nega (o Reino de Deus), quem elevar-se acima da mente e ignorar os anticristos que dizem: "Não há nada antes, nem depois; Deus não existe. A meta da vida é a satisfação de todos os nossos sonhos e desejos".

Nem mesmo a luz, da Teoria da Relatividade de Einstein, é absoluta, porque depende de uma consciência objetiva, para testemunhar a sua existência, isto é: também é um fenômeno relativo. Se todo o universo pensante estiver dormindo, existe alguém que possa confirmar a luz ou qualquer outro fenômeno físico? Ao compreendermos a natureza da existência sensorial (mental), que é completa e 'absoluta' relatividade, percebemos o grande absurdo da máxima cartesiana "Penso, logo existo". O Sábio de Arunáchala, Ramana Maharshi, contraria a filosofia, afirmando: "Acima do que você pensa, está o que você é". Em quem acreditar? Pergunte ao seu Coração...

Nos asseguram os Sábios que aquele "Algo", a Testemunha Interior incondicional, é a nossa verdadeira identidade e a única coisa que vale a pena ser buscada na vida, porque, após 'encontrada', dentro de nós mesmos, nunca nos será tirada; Ela é o "tesouro que ladrão nenhum pode roubar", ensinado pelo Cristo; Ela é o Reino de Deus, morada da Paz e da Felicidade eternas...

 

 

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