RELATIVIDADE E REALIDADE  (2)

 

  

Prossigo com a decisão de publicar, neste web-espaço, as significativas experiências desta alma, que anteriormente eram mantidas em um diário particular. Qual a utilidade das anotações que faço, se elas não forem compartilhadas com os demais buscadores? Atualmente posso divulgá-las sem receios porque, como o leitor não pode comunicar-se comigo, estou protegido contra críticas/ofensas, que me entristeceriam; contra elogios/agradecimentos, que me deixariam orgulhoso; e contra argumentações, que talvez provocassem debates, e debates nunca esclarecem as dúvidas, apenas aumentam-nas. O correto é agir como o semeador, da bela parábola narrada pelo Senhor Jesus, que lançou as sementes indiscriminadamente, mundo afora, e foi em frente sem olhar para trás, desapegado dos resultados de seu trabalho; não esperando por honras e gratidão.

 

Tenho a impressão de que passo por uma fase favorável, pois a meditação tem sido mais eficiente, nas últimas semanas, e os momentos de interiorização, durante o restante do dia, estão ocorrendo com maior frequência. Por exemplo: hoje, durante o banho matinal, olhei para o mundo lá fora, pelo basculante do banheiro, e, inesperadamente, mais uma vez a Verdade insinuou-Se à este coração. Senti, claramente, que as percepções dos sentidos físicos não são reais, em si mesmas. Tudo o que, naquele momento, 'eu' estava vendo e ouvindo, não existe para mais ninguém, da maneira como 'eu' via e ouvia, o que caracterizava a irrealidade da cena, pois, segundo os Sábios, o REAL é eternamente o mesmo, independe do observador. Aquele quadro mundano, tal qual 'eu' o percebia, existe e é verdadeiro sim, mas somente para esta consciência; por trás daquele quadro sensorial, há algo que não sei o que é, mas que agora sei estar lá, e a Intuição me diz que desvendar este mistério é a missão mais importante da vida.  

Imediatamente, houve uma divisão interior: metade de 'mim' regozijou-se com a nova revelação, enquanto a outra metade ficou confusa/amedrontada; um arrepio de exultação percorreu o corpo e senti uma pontada de pânico, no abdômen. Estas reações explicam por que a Natureza vai injetando aos poucos, em nós, a Verdade: não resistiríamos ao impacto de recebê-La em uma única dose.

A tragicomédia da vida e como a desperdiçamos, novamente estava à 'minha' frente: tanto esforço por nada, tantas loucuras para conquistar QI, status, fama, poder e fortuna. Todos querem escrever seus nomes na história, fazer algo grandioso, vencer na vida, unicamente pelo prazer/vaidade de estar em evidência, ser o maior, ser venerado/honrado, e não percebem que o mundo, que sonham conquistar (ou que acham já ter conquistado), só existe em suas mentes. Quando morremos, nossa orgulhosa obra morre conosco, porque o mundo, que pensávamos ser real, também desaparece para sempre, pois ele inexiste para os demais seres pensantes.  E, embora a Existência prossiga, Nela não ficará a mínima lembrança de nós, já que o verdadeiro mundo não era aquele que imaginávamos, no qual tudo girava ao nosso redor. A família, que achas que depende de ti; os amigos, que achas que gostam de ti; e as conquistas, que achas serem tuas, tudo isto é invenção da tua mente, para manter-te no cativeiro do ego. A tua vida, sob a perspectiva real/absoluta (a qual desconheço) ou considerando apenas a opinião de outra pessoa, é totalmente diferente daquela que imaginas. Te achas grande; mas, com certeza, muitos riem de ti: quem estará com a razão? Agora entendo a enigmática frase de Bhagavan Ramana Maharshi, à respeito da doença (câncer) que lentamente matava o Seu veículo físico: "Só estou doente se vocês pensarem que estou doente; se pensarem que estou bem, estarei bem". Conclusão: assim como pensas, assim é o teu mundo (e não o mundo real).

Aceitar que o mundo à nossa volta, que tão ferrenhamente acreditamos ser real, não o é para os outros, é muito difícil (questão tratada no texto "Relatividade e Realidade"); mas, neste momento, gostaria apenas de destacar algumas implicações da revelação de hoje, que destroem mais algumas ilusões:

1) Se alguém muito querido está doente, sofrendo o que acreditas serem dores terríveis, a angústia tua e o sofrimento dela desaparecem durante o teu sono, pois, na verdade, os sofrimentos que nela imaginas existir, só existem para a tua mente, que permanece inativa quando dormes (sem sonhos); então, a tua solidariedade, aparentemente altruísta, é sinal de ignorância e este erro volta-se contra ti, em forma de infelicidade e preocupações descabidas. Foi exatamente tal erro que causou tanta angústia em muitos devotos de Bhagavan Ramana. Atento ao sofrimento deles e não ao Seu (afinal, além de um Sábio perfeito, é um Santo perfeito), Ele procurava explicar através de palavras, para quem não entendia o Silêncio, aquilo que palavras não podem explicar.

2) Se estás diante de um problema aparentemente grave, podes tranquilamente ir dormir à noite, certo(a) de que ele não evoluirá neste período, já que, tanto o problema quanto a sua possível evolução, são reais apenas para a tua mente, quando desperta (condição conhecida como "estado de vigília"). Se, na manhã seguinte, a situação te parecer pior, isto é mais uma criação mental, pois nada acontece em teu mundo particular, enquanto dormes: dormem os problemas, suas causas/consequências e tudo o mais. Sabe que, quando acordas de manhã, o universo inteiro está exatamente do jeito que estava quando entraste no sono, pois o universo, tal qual o concebes, está em ti e não o contrário (nesta frase, o pronome "ti" refere-se à tua mente, no referido estado de vigília).

Em desespero, o ego corre para contestar a frase acima: "Ao ir dormir, é noite e, quando acordo, é dia; então, o mundo não para e isto prova que ele é um e que eu sou outro; que ele existe e funciona normalmente, enquanto durmo". Agora é a hora do buscador avaliar o seu nível de sinceridade, pois esta conclusão egoísta abre um horizonte de agradáveis perspectivas: se os Sábios estão errados e a Unicidade é uma ilusão, tudo o mais que Eles ensinam também deve ser; então, nada precisa de feito e podemos continuar como o restante da humanidade, aproveitando ao máximo os prazeres da vida. Na verdade, se a mente não soubesse perfeitamente como nos enganar, milhões de homens seriam sábios. A aparente continuidade deste mundo, enquanto dormimos, também é obra da mente: não podemos rejeitar esta conclusão, se buscamos nada menos do que a Verdade. Quando este tipo de dúvida nos ameaçar, devemos comparar nossas experiências oníricas, com aquelas que ocorrem quando estamos acordados. Durante um sonho, tudo parece independente do sonhador, tudo parece acontecer de acordo com regras próprias; mas, quando o sonhador acorda, percebe que aquele universo inteiro estava dentro de sua mente. E exatamente o mesmo acontece, neste instante... (não te revoltes contra 'mim', pois enfrento a mesma dificuldade de discernimento).

 

Infelizmente, não é dormindo (e nem morrendo) que evitaremos as mazelas da vida; mesmo se fizéssemos isto por milhares de anos, ao despertarmos (ou nascermos) os mesmos velhos problemas (mentais) ainda estariam diante de nós. Devemos, portanto, nos esforçar por vencê-los aqui e agora, durante os períodos em que a consciência atual ("eu sou fulano de tal") está ativa. Como fazer isto? Os Grandes Mensageiros ensinam várias técnicas e o buscador precisa decidir qual é a mais indicada para si. O importante é que, segundo Eles, todas as práticas espirituais sinceras culminam com a percepção do mundo como ele realmente é, sendo este evento o verdadeiro despertar, do sonho conhecido como "vida".

 

Quanto sofrimento para nós mesmos poderemos evitar, quando esta Verdade estabelecer-Se firmemente em nossos Corações: o mundo não é como pensamos/acreditamos ser? Pelo que senti hoje, por um breve instante, em tal dia começaremos a viver na Felicidade sem fim/restrições...

 

 

POST-SCRIPTUM

Ontem, depois de escrever o texto acima, fui para casa tarde da noite e tratei de ir logo dormir. Hoje, ao acordar, olhei pela janela e vi, tomando quase toda a largura da calçada em frente ao prédio, uma enorme caçamba de lixo, totalmente cheia de entulhos, que não estava ali, quando cheguei ontem à noite (e nem quando deitei). Por um momento fiquei surpreso e, aproveitando a oportunidade, o mal tentou-me:

"Olha novamente pela janela e comprova a insanidade que vens alimentando. Suspeitas de que o mundo não opera sem ti; mas, ele prosseguiu normalmente, enquanto dormias: pessoas trabalharam e coisas aconteceram. Quão presunçoso és!

"Desperdiçaste 12 anos da vida, buscando uma quimera. Preocupas teus parentes e teus ex-companheiros, que tentam trazer-te de volta para a realidade; mas, não dás ouvidos a eles. Repara ao teu redor: estás só; ninguém acompanhou-te, em tua loucura.

"Recorda a boa vida que abandonaste e compara com a atual: valeu a pena? Relembra as emoções das aventuras, dos esportes e dos amores. A vida é uma só e, portanto, não percas mais um segundo, sequer. Tudo pode ser como antes e as facilidades estão diante de ti. Trocas prazeres por austeridades e rejeitas as comodidades. Muita gente gostaria de ter a tua antiga vida; porém, a jogaste fora. Reconhece o erro e volta, enquanto é tempo".

Naquele momento crítico, olhei pela janela e vi, lá embaixo, não mais a caçamba de lixo, mas sim um homem solitário, com uma coroa de espinhos na cabeça, carregando sobre os ombros uma pesada cruz. Fechei os olhos e a Voz Interior sussurrou docemente: "Serei, EU, uma ilusão, um sonho, uma quimera?". Uma torrente de lágrimas veio então, lavando a alma e arrastando consigo todas as dúvidas. Abri os olhos e, agora, aquele mesmo homem estava pregado na cruz. Com esforço, ele ergueu a cabeça, disse: "Obrigado, Pai", e morreu. Este expectador do vívido drama, imediatamente soube qual é o caminho correto e também agradeceu: "Obrigado, Senhor".

 

 

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Por mim, nada posso; mas, por Ti, EU POSSO.

 

01/05/2009

 

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