RELATIVIDADE  E  REALIDADE  (3)

 

    Sonhei que alguém me mostrava uma fotografia emoldurada, onde havia uma belíssima paisagem-sonho, com mata virgem, rios, montanhas, etc.; em seguida, afirmava: "Toda esta beleza não pode ser obra do acaso, isto é obra de Deus". Imediatamente após este comentário, observamos a seguinte cena, na rua-sonho: um rapaz aproximou-se por trás de uma senhora, tomou-lhe violentamente a bolsa e fugiu, correndo. Meu acompanhante-sonho lamentou-se: "Nossa... quanta maldade há no mundo... Que Deus nos proteja!".

Para afastar o desalento, que aquela cena-sonho lhe provocou, principiou a discorrer, com entusiasmo, sobre o assunto "A Criação", de acordo com a perspectiva da ciência. Opinou sobre o "Big Bang", a grande explosão cósmica que teria dado início àquele nosso universo (no caso, universo-sonho); falou sobre o nascimento das estrelas, sobre a possibilidade de vida em planetas bilhões de anos-luz distantes do nosso; sobre o aparecimento da vida, naquele planeta-sonho-Terra, e sobre a teoria da evolução das espécies.

Não satisfeito, resolveu enaltecer a engenhosidade humana, que havia erguido três grandes prédios-sonho, cada um com mais de 15 andares, em um terreno próximo de onde morávamos. Lembro do grande orgulho, perceptível na voz do acompanhante-sonho: "Apenas o homem é capaz de modelar a natureza, segundo suas necessidades; construir prédios que tocam o céu, cidades exuberantes em pleno deserto, praias e lagos artificiais, etc. Realmente, a raça humana foi privilegiada por Deus".

Neste momento, acordei do sonho e perguntei-me, atônito: "Para onde foi aquele mundo, que existia um segundo atrás?!". Vi pessoas que existiam separadas de mim e que, aparentemente, pensavam/agiam por conta própria; vi fenômenos ocorrerem sem a interferência daquele eu-sonhador; ouvi alguém teorizando/especulando sobre Criador e Criação. No entanto, tudo aquilo desapareceu subitamente, quando despertei, e percebi que o único deus/causa primordial daquela criação, era eu mesmo. Enquanto sonhador, criei aquele universo instantaneamente, quando comecei a sonhar. Durante o sonho, porém, fui vítima da ilusão de que ele (o universo-sonho) era separado de mim, embora tudo o que ocorreu no sonho, na verdade, foi obra minha, o deus do sonho. Fui o escritor/diretor do imenso espetáculo, ora benigno, ora maligno, que ocorreu naquele mundo-sonho; fui o criador do acompanhante e  dos demais personagens. Não foram operários que, trabalhando arduamente, dia após dia, ergueram os três prédios sonhados: eu os ergui em um segundo, pois, antes de dormir, eles não existiam e passaram a existir, já prontos, assim que o sonho começou. Portanto, sou o deus dos "meus" sonhos; tudo, neles, acontece de acordo com minha vontade; crio e destruo universos-sonho inteiros, em um piscar de olhos...

No entanto, enquanto sonhava, nenhuma suspeita me ocorreu, de que estava sonhando. Portanto, esta consciência que vos escreve, de nada foi diretor, sobre nada tinha comando: foi vítima indefesa da mente subconsciente. No sonho, acreditei que toda aquela criação era independente de mim e aceitei o julgamento do intelecto-sonho, que, por sua vez, confiou na autoridade de visão-sonho, audição-sonho, tato-sonho, etc. Assim sendo, os três prédios pareciam absolutamente reais, também o acompanhante com quem "eu" conversava e tudo o mais. A moldura da fotografia-sonho, que segurei nas mãos-sonho, era sólida, como qualquer moldura que, neste momento, fosse tocada pelas mãos que estão digitando este texto. Agora entendo por que somos enganados: nos sonhos, a consciência atual não está presente, mas sim uma consciência-sonho, com todos os seus devidos atributos-sonho, e é por isto que um sonho é totalmente real, para quem está sonhando; tão real quanto nos é, neste exato momento, a "realidade" que estamos vivenciando. Então, ficam no ar as perguntas: Quão real é esta realidade, que agora nos rodeia? Podemos confiar nela? Não estaremos sendo enganados, assim como o somos, nos sonhos?

Tal é o poder da grande ilusão cósmica, ensinam todos os Grandes Mestres: faz parecer absolutamente real aquilo que é irreal (relativo). E, como ela atua diretamente sobre o intelecto, que é exatamente a ferramenta que usamos para avaliar a realidade das coisas, ele está contaminado pela ilusão e não pode, de maneira alguma, percebê-la. É por isto que os superdotados de inteligência desprezam a sabedoria sagrada: eles são os menos qualificados para perceber a ilusão (relatividade) em que vivemos, porque acreditam/confiam somente no intelecto.

Se, dentro de nós, não houvesse algo além do intelecto, que pudesse perceber a ilusão, seríamos eternos escravos dela e, consequentemente, a evolução espiritual seria impossível; nunca os homens alcançariam status de "Buda" ou "Cristo". Porém, aquele algo (não importa o nome que seja usado para rotulá-lo) existe, desperta em nossos corações e fortalece-se, com o passar do tempo. Assim, na hora certa, começamos a perceber que intelecto/racionalismo é um obstáculo em nossas vidas...

Os Grandes Mestres também alertam que nenhum esforço deliberado, de nossa parte, pode acelerar o despertar/fortalecimento da força espiritual interior; o processo é independente de nossa vontade (carma/destino?). Enquanto não estivermos prontos, a relatividade continuará nos parecendo Realidade. Enquanto, em nossos corações, a Realidade não imperar naturalmente e com exclusividade, tal como a relatividade ainda impera, continuaremos escravos deste mundo de ilusões...

 

P.S.: É errado garantir, neste momento, que a realidade que nos rodeia é real, pois estamos mergulhados nela. É tendencioso tal julgamento, já que não somos juízes imparciais, por não estarmos acima do caso em questão. A certeza atual, provocada pelos sentidos físicos, não é prova de realidade, porque, quando mergulhados no mundo onírico, os sentidos-sonho nos garantem que ele é real e nem sequer lembramos de que há alguma outra existência. Apenas aqueles que transcenderam esta realidade, que agora vivenciamos, têm autoridade para julgar se ela é real (Absoluta) ou não (relativa). E todos eles garantem: vivemos em um mundo de relatividades, de opiniões, de ilusões, de incontáveis meias-verdades, e totalmente distantes da VERDADE (Realidade).

 

 

26/06/2013

 

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