A SUBSTÂNCIA DAS COISAS

 

 

Inicio informando que ainda não obtive a compreensão permanente e definitiva da Verdade sobre a substância de tudo o que existe.  Vou considerar, como referências, a experiência interior descrita no texto "UM" e os ensinamentos dos Sábios.

Um dos exemplos clássicos que Eles usam, para explicar o fenômeno, é aquele do barro e dos vasos. O barro é a matéria-prima de diversos recipientes, genericamente chamados de 'vasos'. Mudam as formas e, de acordo com as formas, mudam as utilidades dos vasos. Por exemplo: alguns vasos são moldados como pratos; outros, como canecas; outros ainda, para plantas; etc. Muda a aparência e a missão particular de cada vaso, mas a matéria-prima é sempre a mesma: barro. O artesão consciente vê as aparências, mas não se deixa enganar por elas, e tem sempre em mente que toda a sua obra é somente barro. Os vasos não são eternos, pois, cedo ou tarde,  se quebrarão, voltando a ser barro. Quem apenas vê o vaso e apega-se àquela forma temporária, sofrerá quando ele retornar ao barro original. Quem, ao contrário, alegra-se apenas com o barro, nunca se decepciona, pois o barro sempre é e sempre será barro. Atenção: os Sábios advertem que, no microuniverso deste exemplo, o barro é considerado como elemento absoluto, mas, quando visto à partir da Realidade, ele é apenas mais uma das formas assumidas pela amorfa Substância Primordial (normalmente conhecida como DEUS), que é a matéria-prima de toda a Criação. Esta advertência é necessária, porque, no contexto superior, o barro é inconsciente e relativo, ao contrário do Criador, que é Consciência Impessoal, Eterna e Absoluta, e, acima Dele, nada existe. Na verdade, esta definição não é correta e apenas deve ser considerada como um referencial. Como o Altíssimo não pode ser definido por palavras, não é certo dizer que Ele é isto ou aquilo, adjetivo ou substantivo; menos errado seria dizer, simplesmente, que Ele É (melhor ainda, seguir o exemplo do  Senhor Buda e não manifestar-se sobre o assunto).

Assim como os vasos não podem existir sem o barro, assim também todas as manifestações do universo não poderiam existir, nem por um segundo sequer, separadas de DEUS (portanto, é prova de ignorância e não de bondade, nos despedirmos de alguém desejando: "Vá com Deus"). Esta Verdade Suprema é confirmada por todos os Sábios, mas, na opinião deste digitador, Ela nunca foi enunciada tão singela e sublimemente quanto o foi pelo Senhor Jesus: "O Reino de Deus está dentro de vós". Incompreensivelmente, a esmagadora maioria dos adeptos das religiões cristãs, não dá importância a estas palavras e prefere crer que o Altíssimo é um ser separado, com aspecto de homem, que vive em um céu distante, no espaço e no tempo. Apesar desta carne ter sido batizada como católica, não me considero cristão, pois, embora acredite no Cristo, acho que merecem este título somente aqueles que vivem segundo os ensinamentos Dele, e ainda estou lutando para conseguir isto; mas não há dúvida alguma, no coração de quem digita, de que o Grande Instrutor nunca erra e que o ensinamento está impresso, no Evangelho de Lucas, exatamente como foi proclamado 2.000 anos atrás. Nenhum homem mundano poderia cunhar tão sucinto, esclarecedor e devastador aforismo, que atinge o âmago de quem está pronto para entrar ou já entrou no caminho. Este ensinamento, tal qual chegou até nós, vem direto da Fonte Original da Vida e, ignorá-lo ou rejeitá-lo, significa adiar ainda mais o fim dos sofrimentos e da escravidão.

Repeti, quase com as mesmas palavras usadas em outro texto, o trecho acima, devido ao e-mail que recebi de um leitor. Na verdade, um desabafo de alguém que parece viver em constante aflição. Em determinado trecho ele refere-se ao ensinamento mais mencionado nos textos desta página, que pode ser resumido na seguinte frase: "DEUS está em tudo, mas apenas dentro de nós Ele pode ser encontrado" e apresenta sua dúvida de que isto seja verdade. Não respondi à mensagem, pois não soube o que responder. Como poderia, este digitador, que ainda está lutando para vencer a poderosa correnteza das ilusões, ajudar alguém a atravessar o rio da vida? Acabariam os dois se afogando... Se a pessoa ainda não acredita nos Sábios, como poderia ser convencida por um ignorante? De qualquer forma, a redentora dúvida foi semeada no coração daquela alma e, na hora certa, a boa semente vai começar a frutificar...

 

Voltando ao barro e aos vasos: o problema crucial é que vemos beleza e utilidade apenas nestes últimos e, não, no primeiro. Como está escrito no Bhagavad-Gîtâ, nos apegamos tão ferrenhamente às ilusões do mundo ('vasos'), porque elas, no momento, são agradáveis e doces para o ego, enquanto a Verdade ('barro'), nos parece amarga. Mas, a única solução para o buscador sincero, é não desistir da luta, e suportar, o mais pacientemente possível, a temporária 'amargura' da Verdade e a angústia pela lembrança das delícias abandonadas, pois, nos garante o Senhor Krishna, no momento certo aquele sabor amargo se transformará em suprema e eterna doçura; então, as anteriores docilidade e suavidade das ilusões e dos prazeres, não mais nos atrairão e serão esquecidas.

Com o esclarecimento de que tudo que existe (animado ou inanimado) é feito da mesma matéria-prima divina, começamos a entender por que os Sábios tratam a todos os seres vivos com a mesma compaixão, sejam eles racionais ou não. Esta Verdade é rejeitada, porque sabemos, instintivamente, que a sua aceitação causaria grande revolução dentro de nós e teríamos que jogar no lixo muitas de nossas queridas 'verdades'.

Se o Criador está em tudo, Ele também está no mosquito que nos aborrece à noite, zunindo no ouvido e sugando nosso sangue; no entanto, sem o menor sentimento de culpa, matamos estes insetos, que estão no mundo há muito mais tempo do que o homem. Apenas Aquilo que gerou a vida, tem o direito de tomá-la de volta. Reparem que até mesmo as mais 'insignificantes' (para o ego) formas de vida, possuem poderoso instinto de sobrevivência. Para este digitador, isto não é coincidência ou acaso, mas sim prova de que todas as criaturas são importantes, para a Natureza, ao contrário do que imagina o autointitulado 'ser superior'.

Se o Criador está em tudo, Ele também está no ladrão que nos assalta e por aí vai... "Ame o seu inimigo", ensina o Cristo. Interpretada intelectualmente, esta frase é inadmissível, devido ao conceito errado que temos, do verdadeiro Amor.  O que entendemos por amor, é um sentimento egoísta, o Grande Instrutor sabe muito bem disto, e não seria ingênuo ou louco para sugerir que edificássemos sentimentos bons em relação àqueles de quem não gostamos. A atitude de amar o inimigo significa tratá-lo da mesma forma que gostaríamos de ser tratados, independentemente de como a pessoa nos trata ("Não resistais ao mal"), e este comportamento é tanto mais possível quanto menos identificados com o ego estivermos (o ego é aquilo que, orgulhosamente, diz: "eu sou fulano de tal"). Quem ama apenas aqueles que o amam, nada faz demais (em termos de evolução espiritual), nos foi alertado no divinamente inspirado "Sermão da Montanha" (Mateus,5), um conciso e completo manual de vida, resumo dos ensinamentos contidos em todas as Escrituras Sagradas.

Sei, por experiência própria, que é muito difícil aceitar as Verdades mencionadas acima, totalmente contrárias aos nossos instintos, opiniões e exemplos (péssimos) que observamos à nossa volta; e, mesmo depois de aceitas teoricamente, colocá-las em prática. Entretanto, é possível fazê-lo, desde que percebamos que não é através dos sentidos físicos e do intelecto, que o mundo é visto corretamente, e desde que estejamos determinados a livrar-nos da ignorância de que cada ser humano é um universo independente (egoísmo). Somos muito mais espiritualmente fortes do que imaginamos e prova disto é que este digitador, que não é superior a ninguém, está, aos pouquinhos, conseguindo integrar, à vida cotidiana, comportamentos nada simpáticos ao próprio ego...

 

Outro exemplo, relacionado ao assunto deste texto, era usado por Bhagavan Ramana Maharshi, e me parece bastante esclarecedor: o cinema. Sobre a grande tela é projetado o filme e o espectador comum dá apenas atenção ao filme, não à tela. Os Sábios, ao contrário, ficariam atentos unicamente à tela, nunca ao filme, porque Eles só valorizam aquilo que é sempre o mesmo e que existe por si só (neste caso, o filme é o elemento temporário e relativo, enquanto a tela é eterna e absoluta). O filme não pode ser visto sem a tela, e muda constantemente, ora é alegre, ora é triste, mas a tela nunca muda, isto é, não é afetada pelo filme (um incêndio neste, não queima aquela, etc.). A tela está sempre no mesmo lugar, mas é percebida por pouquíssimos espectadores. A explicação lógica, em relação ao cinema, é que a tela não tem graça, enquanto o filme, mesmo que não seja interessante, é uma distração para o ego. No caso da Existência, a tela é a substância das coisas (DEUS) e, o filme, é o mundo que percebemos. Quem se identifica com o filme da vida, é lançado de um lado para outro, pelas emoções que ele provoca; mas, quem identifica-se apenas com a tela por trás do filme (DEUS), mantém-se permanentemente tranquilo e feliz. O espectador do filme é como um barquinho indefeso, à deriva em mar tempestuoso: não sabe onde será lançado; o espectador da tela, ao contrário, é o poderoso Senhor das tempestades e, mesmo quando é varrido pela pior delas, nunca perde o controle da embarcação. Isto é importante: os Sábios não estão livres daquilo que classificamos como 'calamidades da vida'; Eles apenas não as consideram como tal...

 

Uma interrupção agora é necessária, antes do protesto de que as emoções são boas e só com elas a vida vale à pena. Este erro é bastante comum e é disseminado até em letra de música: "se chorei ou se sorri, o importante é que emoções eu vivi". Nos últimos anos, tenho ouvido bastante vezes o conselho de que devo me 'soltar' e aproveitar a vida. Não se iludam achando que é possível alguém entregar-se às transitórias emoções boas (prazeres) e conseguir manter-se calmo, não se desesperando e sofrendo devido às emoções ruins. Se isto fosse possível, os Sábios já teriam descoberto a fórmula mágica e divulgado a boa nova para a humanidade. O que podemos facilmente perceber é que, quanto mais apegada aos prazeres do ego, mais sensível ao sofrimento uma pessoa é. Citando novamente a inesgotável fonte de Sabedoria Universal, que é o Bhagavad-Gîtâ: "Quem não se alegra, no momento de alegria, e não se entristece, no momento de tristeza, é feliz e entrou no caminho da libertação". Conclusão: o nível de Felicidade (incondicional) de cada um, é inversamente proporcional à quantidade de emoções às quais se entrega.

 

Continuemos do ponto interrompido. Da mesma forma que, quem vê o filme não percebe a tela do cinema, quem vê (é apegado) ao mundo nunca percebe (encontra) DEUS. Assim como desprezamos o barro e a tela do cinema, apesar deles serem os elementos indispensáveis nos contextos apresentados, desprezamos a Verdade (outra designação para a substância de tudo), mesmo estando Ela diante de nós, o tempo todo; sendo Ela a Causa Primeira e Única de nossa criação; e sendo Ela a Felicidade sem fim. Nossas cegueira e insensibilidade são um enorme mistério para mim e acredito que também para os demais que já pararam para refletir sobre a questão, porque os Sábios garantem que a Tela Real e Eterna é mais radiante do que mil sóis e mais tranquilizadora do que mil abraços de mães; e contudo, continuamos ignorando-A e escravizados ao egocêntrico filme mundano, cujo enredo tem poucos momentos de alegria e muitos e muitos sofrimentos...

 

 

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30/12/2007

 

 

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