ESPERANÇA É A ÚLTIMA DEFESA?

 

 

Há mais de 20 anos, escrevi um texto intitulado "Esperança é a última defesa", referindo-se à minha esperança de que este corpo se recuperasse completamente da sequela de um acidente. Durante o período de tratamento médico, sempre que a angústia me assaltava, buscava forças naquelas palavras datilografadas em uma folha de papel...

Hoje, olho a velha folha, com as letras desbotadas e o papel amarelado pelo tempo, e percebo que não tenho mais nenhuma identificação com as palavras que escrevi ali, sobre qual é a última defesa do ser humano. Lembro-me bem que, na época, havia a sensação de que o título e o conteúdo do texto eram corretos e apropriados. O que aconteceu, nas décadas posteriores, para provocar a mudança de opinião? Aconteceu apenas o desgaste natural do que é temporal e relativo. Nossas verdades (conceitos e opiniões) mudam constantemente, pois são criações da mente, também em constante mutação. No fundo, nem poderíamos dizer que são "nossas": são verdades do mundo, que, após um toque pessoal, incorporamos ao nosso intelecto e, posteriormente, abandonamos, quando deixa de ser agradável para o ego. Entretanto, há uma Verdade Absoluta, pois, do contrário, como acreditar que existe uma Força Superior que criou e mantém o universo? Sem Ela, o Criador seria apenas mais uma relatividade, como todas as outras. Quem acredita no Altíssimo, deve aceitá-La. Não apenas aceitar, pois isto é a parte mais fácil: temos obrigação de buscá-La, dentro de nós mesmos, e praticá-La, todos os dias, porque esta é a meta da vida, como ensinam todos os verdadeiros Sábios.

 

Criou-se o mito de que o Senhor Buda não acreditava em "Deus". Este termo, bastante desgastado e o qual evito usar, não pode ser usado como referência para a aferição da religiosidade de ninguém, pois é apenas um conceito (relatividade), que varia de pessoa para pessoa. Lendo e meditando sobre os ensinamentos de Gautama Buda, nunca percebi que Ele negasse que há Algo no comando do universo. Isto é o que importa, tanto faz o nome com que seja designado. Percebo, claramente, que Ele não se pronunciava sobre o tema, porque a única resposta coerente para a pergunta "O que é DEUS?" era (e sempre será) o silêncio. Já naquela época, há 2.600 anos atrás, existia o "Deus" criado à imagem e semelhança do homem. A este "Deus", com atributos humanos, tanto no passado longínquo, quanto no presente, recorremos quando passamos por dificuldades. Infelizmente, achamos que Ele pensa e age como nós e foi este "Deus" (criação mental) que o Senhor Buda negou. Os homens esperam se livrar de seus pecados e conseguir coisas mundanas, rezando para "Deus" e fingindo arrependimento, oferecendo sacrifícios sangrentos ou fazendo promessas vazias, como se a Força Superior pudesse ser enganada/subornada por tais atitudes. Cada um deve encontrar a Verdade (DEUS), dentro de si mesmo e além da mente, para conseguir libertar-se de todos os sofrimentos (todos os Sábios dizem o mesmo, apenas com palavras diferentes, adequadas à ocasião).

 

Com o aprofundamento da meditação, "fragmentos" da Verdade Absoluta, que sempre esteve e sempre estará dentro de nós, começam a se manifestar, através da Intuição, e são facilmente comprovados em nossa experiência cotidiana. Estes novos conhecimentos podemos, sim, chamar de nossos, já que não são maculados pela mente e pelo mundo exterior; não são conceitos e opiniões, sujeitos a posterior substituição. Não há possibilidade de enganos, sobre o valor dos ensinamentos da Voz Interior. A consequência imediata das experiências intuitivas, é que o buscador torna-se capaz de identificar, imediatamente e sem vacilações, se conselhos/opiniões, venham de onde vierem, são dignos de atenção; e, como a maioria não é, acabam sendo solenemente ignorados (devido à crescente independência, em relação às 'verdades' do mundo, o buscador é tachado de intransigente e arrogante, simplesmente porque não quer mais ser enganado...).

Lendo agora o texto "Esperança é a última defesa", percebo egoísmo e ignorância em cada linha, em cada palavra. Egoísmo, por apenas tratar da cura do corpo material, que, por mais cuidados que tenhamos, cedo ou tarde vai desaparecer; ignorância, por considerar uma relatividade (esperança), um fator decisivo para a Existência. Hoje sei que a esperança não é a última defesa e, nem mesmo, é uma boa defesa. Ela nos defende contra o desespero, mas provoca um efeito colateral terrível: nos mantêm acorrentados ao mundo. Uma parábola do Sábio Ramakrishna, me parece apropriada para a ocasião.

Enquanto o filho está entretido com um brinquedo, a mãe pode tratar dos afazeres domésticos; quando ele entedia-se com um, chora e, então, a mãe vem, lhe dá outro, e retorna às suas tarefas. Entretanto, chega uma hora em que a criança não se satisfaz mais com brinquedo algum e chora sem parar; agora, a mãe tem que parar todo o trabalho, pegá-la no colo e acalentá-la.

Após ganhar um brinquedo novo, a criança da parábola tinha a esperança de que, com ele, seria feliz; mas, pouco depois, percebia o engano e depositava sua esperança em um novo brinquedo. Apenas quando ela perdeu a esperança de que brinquedos poderiam fazê-la feliz, foi que sua mente voltou-se para a mãe. Da mesma forma, apenas quando o homem perde as esperanças de que conseguirá ser feliz, 'brincando' de ser rico, poderoso, famoso, inteligente, invejado e desejado (isto é, brincar de vencer na vida), é que Aquilo, a verdadeira Mãe de todos nós, se aproximará dele e o confortará.

Observe a sua vida e perceberá que tem sido enganado(a) todo o tempo, pelos desejos e pela esperança. Vem o desejo e diz: "Consiga isto, que você será feliz". Saímos por aí, então, atropelando todo o mundo, para conseguir aquilo. Se formos bem-sucedidos, por um pequeno período gozaremos o prazer da conquista, achando que, finalmente, somos felizes. Contudo, pouco tempo depois, aquele prazer desaparece, como todas as relatividades da vida. Neste momento, vem a esperança e diz: "Certo, a felicidade não estava naquilo, mas você está chegando perto dela; não se desespere e continue tentando...". Em seguida, novamente o desejo ataca: "Me enganei antes, mas, desta vez não tem erro: consiga isto e garanto que você alcançará a felicidade". Esta tragicomédia não acabaria nunca e seríamos enganados até o dia do juízo final, se não estivesse o homem em contínua evolução (mesmo inconscientemente). No momento, somos como bolas de tênis, sendo lançadas de um lado para outro, sem poder algum sobre as nossas vidas. Nos consideramos livres, mas a verdade é outra: somos escravos dos desejos e apenas isto pode explicar os absurdos e as baixezas que praticamos; ninguém, em sã consciência (livre do ego/mente), poderia caminhar pela vida como o fazemos. Atenção: em nenhum momento considero-me acima das críticas expostas neste e nos outros textos. Já contribuí bastante para tornar o mundo pior, tentando fazer o 'meu' mundo melhor. Talvez algumas pessoas se sintam ofendidas e injustiçadas, por palavras tão duras. Para elas, a resposta é: quem está lendo, neste momento, é o ego/mente e é ele quem se sente ofendido. É uma reação previsível, porque, como poderia o ego encontrar defeitos em suas próprias atitudes? Situação semelhante seria a de um julgamento, em que o réu fosse, também, o juiz. O veredicto seria sempre o mesmo: "Inocente". As críticas neste e nos outros textos não visam ofender a ninguém; elas são como a sacudidela que nos dão, para que despertemos rapidamente de um pesadelo. Quem se acha perfeito, embora não proclame em alta voz a sua superioridade, ainda não conseguiu se distanciar do ego. Apenas percebo 'meus' (do ego) próprios erros e defeitos, quando estou atento ao grande inimigo interior. Confesso, entretanto, que ainda não consigo manter indefinidamente o distanciamento necessário, para impedir o retorno da velha e conhecida ignorância...

 

Felizmente, vem a bendita hora em que começamos a perder as esperanças mundanas. Após sucessivos fracassos, decepções e sofrimentos, o homem vai, lenta e irreversivelmente, desencantando-se com o mundo. Os Sábios afirmam que o sofrimento é o propulsor da evolução humana e Bhagavan Ramana Maharshi apresenta o exemplo do sonho, para confirmar o fato: enquanto sonhamos com alguma coisa que nos seja agradável, não despertamos; mas, quando temos um pesadelo, acordamos quando o sofrimento torna-se insuportável. Da mesma forma, enquanto nos mantivermos acomodados e relativamente satisfeitos com a vida atual (que o Senhor Jesus chama de morte), não despertaremos para a Vida, para a Verdade Absoluta (Reino de Deus), que é a última, primeira e única defesa permanente do ser humano.

Disse o Grande Instrutor: "Quem anseia o Reino de Deus, coloque sobre as próprias costas a sua cruz e siga-me". Então, como a cruz (sofrimentos) é necessária, apenas rogo ao Altíssimo que me dê forças para carregar a minha...

 

 

Por mim, nada posso; mas, por Ti, EU POSSO.

 

06/01/2007